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terça-feira, 15 de novembro de 2011

No dentista

Semana passada Letícia foi ao dentista. Revisão dentária no aparelho que está usando. Ir ao dentista, pra criança, é sempre um não querer, rejeição natural. Sentar na cadeira do dentista é esperar ter dor, é perceber o tempo não passar de forma alguma. “Maldito relógio que não passa as horas rapidamente”, é o mínimo de xingamento que Lelê pode pensar.
É possível arranjar estratégias para amenizar esse sofrimento infantil. Não, não é prometer docinhos, chocolates, ou alguma coisa. Lelê já está grandinha e isso não é mais sua fase. Ela tem que estar consciente de que esse tratamento é em seu benefício.
E a estratégia ela mesma conseguiu. Simples: quando for sentar na cadeira do dentista é só trazer à mente fatos engraçadas que lhe tenha ocorrido, presenciado. Lembrar-se de piadas que lhe fez torcer de rir. Bem, essa foi a tática que ela adotou.
O problema é que sua cabeça extrapolou a ocasião e o seu riso provocado por situações engraçadas não estava deixando o dentista trabalhar. Deu-lhe uma crise de riso que não estava conseguindo controlar-se. O que seria que essa menina estava pensando para rir tanto assim? Ela não disse do que se tratava. Não abria o jogo por nada. Que piada tão interessante foi essa?
Depois que Maurinete a olhou séria, como se estivesse advertindo de que o dentista tinha compromissos com outros pacientes, ela foi se controlando aos poucos, saindo de seu estado espirituoso para o estado dental; Ela percebeu que não estava num circo, e sim, num consultório odontológico.
Ah, essa curiosidade de adulto pra saber o que se passava naquela mente infantil. A única coisa que sei que não é nada pilhérico, e que Lelê deveria ficar sabendo, é que a conta do dentista não é nada engraçada.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O fanzine

Lelê foi pra biblioteca do trabalho de sua mãe, ia encontrar com uma amiga para fazer um trabalho da disciplina artes. Hoje não tem aulas pra ela, devido ao feriadão de quinze de novembro que assola Brasília.

O trabalho consiste em fazer um fanzine. Só sei que é um fanzine. A temática, não sei. Sabemos que esse tipo de comunicação foi um grande sucesso nas décadas de setenta/oitenta. A juventude era craque para isso.
Acho importante que o Colégio de Lelê lhe atribua essa tarefa, mas mais importante ainda seria se Lelê e galera tivessem tido a iniciativa de fazer esse fanzine sem o colégio ter pedido. Soaria mais autêntico, mais instigante, e com a possibilidade de ter a cara da rebeldia, característica de fanzines e de quem geralmente os produz.
Não sei se a pedagogia do colégio de Lelê primou por habilidades manuais (recortar jornais e revistas, colar, diagramar, colorir...) ou não percebeu que hoje o fanzine está a mil quilômetros de velocidade com o advento da internet.
Ao invés de tesoura, cola, régua, lápis de cor, pincel atômico, papel colorido, grampeador, hoje existe as ferramentas chamadas de mouse, control cê e control vê e fartura de material no vasto mundo digital, para todos os gostos, para todos os segmentos.
Ao invés de colocar a criatividade em papel, hoje em dia se constrói blogues em três passos simples. É mais bonito e atinge um número de leitores demasiado e se acessa de qualquer lugar. É dinâmico em sua conjugação de aceitar fotos, textos e imagens. Tudo colorido e com mil efeitos.
A não ser que este fanzine caseiro seja exatamente para radicalizar e mostrar que o autêntico mesmo é não entrar nas ondas cibernéticas. Que o importante é ser diferente com o agora não mais tradicional fanzine impresso.
Pra Lelê, isso de impresso ou digital, não é problema. Aprecia tanto um como o outro. Gosta de ficar cortando papel e enfeitando suas cartas pras amigas, e recebendo broncas minhas e de Maurinete porque deixa tudo bagunçado, com papéis recortados e picados pelo chão, tubo de cola aberto derramando, tesoura aqui, canetas e lápis acolá, e sua escrivaninha em zorra total.
A tecnologia, pra Lelê, pode ser avançada, como um tablet, que ainda não tem, ou recuada, como um radinho à pilha. Isso mesmo. Descobriu um radinho a pilha que tenho e agora só vive com o bicho ouvindo as rádios.
Só não perde, em termos de tecnologia atrasada, pra Ziraldo, que tem horror a computador e possui oito máquinas elétricas de datilografia. E por quê oito? Disse ele que é porque não existe mais oficinas de conserto para essas máquinas. Vi o Zira falar isso numa entrevista no programa do Jô Soares.
Espero ver o resultado desse fanzine de Lelê e amigas.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

No mundo da Lua




Saí do trabalho e fui pegar Lelê na escola। Hoje ela não voltará na van escolar. Só assim chegará mais cedo em casa pra almoçar, evitando o trânsito e o pinga-pinga da van apanhando os estudantes.


Quando ela entrou no carro foi logo falando que hoje o dia tinha sido maravilhoso। Coisa rara: disse que a aula de matemática foi “fera”, que aqui tem o significado contrário de feroz. Lelê, elogiando a aula de matemática! Era sobre triângulos. Não, não é possível. Alguma coisa está fora de órbita. Aliás, por esses dias tudo tem sido as mil maravilhas, segundo ela. Pergunto por que e ela não sabe da resposta. Só sabe que está legal e pronto.


Já que ela não tem resposta, então não vou insistir procurando a razão। Enquanto dirigia o carro e via seu rosto risonho pelo retrovisor interno, pensei: “por quê tudo tem que ter resposta se a coisa está fluindo de forma deslumbrante?”।


Sem eu perguntar nada ela diz que ontem sonhou dirigindo meu carro.
Eu – Dirigir é muito bom?
Lelê – Nossa! É muito fera (essa palavra é seu curinga)। Aliás, esse ano essa é a quinta vez que eu sonho dirigindo.


Não sei interpretar sonhos। Sou um analfa na questão de signos, mundo astral, esoterismo e os hermetismos pascoais. Numerologia? Nem sei o que é isso. A não ser que dois mais dois são cinco. E esse cinco de Lelê? Cinco sonhos. Dirigindo. Aliás, ontem, por volta de meia noite, ela estava dormindo, quando ouço um vozerio de conversa. Estava eu na biblioteca, vizinho ao seu quarto. Corro para ouvir o que ela falava, mas não deu para entender nada. Ela ficou perplexa quando lhe disse que havia falado em seu sonho.


Chegando em casa para almoçar e viu que era frango a la parmegiana, exclamou: “Nossa, hoje tá tudo combinando!”।


Por volta de 19:00 horas, estava estudando com Maurinete, ainda história, quando se levantou para beber água, viu a Lua। Não se conteve e correu para vê-la melhor do quintal। “Nossa, mãe, como a Lua está linda! Venha ver!”.




Mauri: “Sim, tudo bem, mas cuidado pra você não ficar no mundo da Lua na hora que for fazer sua prova”। Caí na gargalhada.


Dirigir, cinco sonhos, Lua। Hoje Lelê está light. Está zen. Está nas nuvens. Que os deuses astrais a ilumine nas camadas eflúvias do cosmo.


Observaçao. A pesar da máquina não ser boa, mas foi essa a Lua de Lelê que captei.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

É o fim!

Ontem Brasília estava com o tempo de chuva fina constante, nublado, frio, fazendo com que estivéssemos empacotados em lãs. Um clima que refletia no comportamento das pessoas.


Lelê, toda agasalhada, de meias, estava borocoxô, achando tudo uma eme por causa desse clima frio que deixa a gente frio para qualquer atividade. Ela começa a rir esmaecidamente e indago desse gélido riso, e me diz que está simplesmente zombando do tempo. Seria uma forma de se resguardar do tédio?


Lelê tinha que estudar, mesmo com a pasmaceira do tempo. Pegou o livro de História e deu uma olhadinha, e, de repente, soltou uma gargalhada, explodiu de alegria, vibrava, dava pulos, rodopiava no centro da sala, deu um soco no ar como os jogadores de futebol quando fazem um gol, e gritou um “urrruuuu!!!!”.


Estava fazendo minhas lições do curso de inglês e fiquei perplexo com sua mudança repentina de comportamento e lhe indaguei:
Eu: - “Que é isso, minha filha, o que foi que aconteceu? Nesse instante você estava down, e agora parece que ganhou na mega sena! Fale logo!”


Lelê: - “Pai, você não sabe! Olhe aqui – e apontou pro livro de História – esse é o último capítulo que eu vou estudar esse ano! Urruuu!”.


Apenas ri concordando com sua alegria. Se fosse eu, também estaria morrendo de contentamento, doido pra chegar as férias escolares.


O capítulo trata-se de “Os E.U.A. no século XIX”. Maurinete chegou para estudar com Lelê, lhe orientar, sanar suas dúvidas. Se revezam na leitura. Lelê se surpreende porque Abraham Lincoln, que acabou com a escravidão nos Estados Unidos, foi assassinado em um teatro.


Estranhou Lelê a chamada política do Big Stick (grande porrete) adotada pelos Estados Unidos. A sonoridade das palavras lhe chama a atenção, como o da Ku Klux kan, a KKK, nome de várias organizações racistas que apoiam a supremacia branca nos Estados Unidos. Ela começou a rir e perguntei-lhe do que ria e indagou-me:

Lelê: - Ku, o quê, pai?


Enquanto isso, Barack Obama, o primeiro presidente negro dos EUA, está na luta por sua reeleição, mas, pelo que se observa, a americanada tá doida pra botar o negão (como costuma se referir Arnaldo Jabor na CBN) fora da presidência. Essa questão Lelê sempre vê no Jornal Nacional, da Tv Globo, jornal que costumamos ver.


Mas Lelê não quer saber da política americana, quer é se ver livre desse livro e abraçar a causa das férias escolares.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Comendo tabletes

Sábado passado último, dia 05/11, escrevi aqui nesse blog sobre os tablets e sua recepção para fins escolares. Volto hoje ao tema porque houve uma incrível coincidência. Não é que o Correio Braziliense, jornal aqui de Brasília, trouxe hoje, 07/11, como manchete de capa esse tema? Veja a manchete aí acima.


Tudo que eu falei aqui, e muito mais detalhes, a matéria de duas páginas trouxe com análises de especialistas. Mostrei a capa do jornal pra Lelê perguntando se ela gostaria que isso também fosse aplicado em sua escola e ela, naturalmente, ficou babando de inveja do Sigma, colégio que começa a adotar o tablet em uma turma no próximo ano.


Adeus aos livros impressos! Louvarão os alunos do projeto piloto. Tudo é uma questão de adaptação. Para melhor, com certeza. Não vou aqui reproduzir o que o jornal abordou, mas só reafirmar de que tudo é uma questão de adaptação, e tomo como exemplo a própria Letícia.


Quando ela tinha aí seus sete, oito anos, já estava no computador fazendo desenhos no paint, e gostava de escrever cartinhas pras suas primas e tias de Vitória-ES. Só que ela catava as letras. Passava um tempão para redigir um pequeno textinho.


Hoje fico apenas ouvindo o téc, téc, téc, que ela faz no teclado digitando sua comunicação com a galera do colégio. Ela sempre teve uma caligrafia de baixa qualidade. Já vi momentos dela me perguntar o que ela tinha escrito, nos deveres da escola, porque não estava entendendo.


Letícia será uma candidata em potencial – Letícia e sua geração – de não mais ter caligrafia, não ter mais o hábito de escrever à mão, como aliás começará a acontecer com os alunos de Indiana, Estado dos Estados Unidos. A tendência é que haja aperfeiçoamento de digitação.


O Correio Braziliense trouxe uns dados bastante reveladores, como, por exemplo, e isso chama a atenção, de que na Coréia do Sul, a partir de 2014, o material didático das escolas não será mais impresso, e em Taiwan os livros já foram substituídos por versões digitais.


Pra mim, repito, o importante é gostar de estudar, gostar de ler, gostar de ler livros, se aprimorar no conhecimento, não importando o suporte, e sim o conteúdo.


Que viva Lelê e sua geração comendo tabletes de chocolate, tablets escolares...

domingo, 6 de novembro de 2011

Rock Brasília

Fomos ver o filme de meu conterrâneo paraibano Wladimir Carvalho, Rock Brasília – Era de Ouro. Eu, Maurinete e Lelê. Já vamos começar a colocar Lelê no circuito de filmes recomendados acima de doze anos.
Sai aquela garotinha curiosa pelos personagens do teatrinho do Lea e Nando, companhia famosa de Brasília para o publico infantil, e entra a pré-adolescente para os filmes já mais densos, roteiros mais exigentes de análises com a idade da razão, mesmo eu não sabendo muito bem o que é esse “idade da razão”. Não vou conjecturar aqui o peso dessa palavra, porque não tenho razão para tal..
Saímos sedentos para vermos o filme e, que merda!, A fita acabara de sair de cartaz. Droga! Ficamos chupando dedo e fomos pra casa de minha mãe. Resta-nos comprar o dvd, se for comercializado.
Queria eu tanto que Lelê visse esse filme para ela perceber a efervescência de uma juventude rebelde, militante, criativa na música, e saber que Brasília já teve momentos de insurgência.
O filme destacou o Badernaço, momento político em que Brasília ferveu às ultimas consequências, em que a Rodoviária, hoje chamada de “antiga rodoviária”, pegou literalmente fogo. Não sobrou nem pros carros da polícia, todos queimados pela turba de jovens vindos enxotados pela polícia da esplanada.
Queria falar pra Lelê que eu era um daqueles manifestantes que atravessou aquelas chamas, aquele fumacê, jogando pau e pedra contra a polícia e fazendo a maior arruaça. O clima estava propicio, não havia como não se manifestar quem ali estivesse presente.
Queria eu falar pra Lelê que eu não estava presente a outro badernaço que chamou a atenção do Brasil inteiro, o show da Legião Urbana no estádio Mané Garrincha, porque eu estava ressacado de botecos e altas conversas com amigos de discussões políticas.
Esse fllme, tenho certeza, Lelê verá, mais cedo ou mais tarde, porque ele é a história da ebulição de uma juventude brasiliense criativa, cheia de vitalidade e com consciência política. Direi a ela que essa juventude, é verdade, era uma juventude da classe média, bem de vida, filhos de funcionários bem remunerados e que primavam pela intelectualidade. A UnB foi um celeiro que emanava eflúvios de inquietação.
Por coincidência estou colecionando a edição completa da obra da Legião Urbana que está saindo agora nas bancas de jornais, e os dois primeiros volumes são muito bons. Sempre que estou ouvindo-os no carro, e Lelê está comigo, falo pra ela escolher uma música pra gente curtir. Ela sempre escolhe E e M, ou seja, Eduardo e Mônica. Eu falo que é E e M, ou seja, Eduardo e Maurinete, e ela ri com o canto da boca.