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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O LAÇO

A poesia é capaz de emocionar as pessoas. Sim, claro, depende de quem a escreve e com que sensibilidade, com que arte se escreve. De Carlos Drummond de Andrade já li quase todos seus livros de poesias, e, realmente, é de embevecer. Tem cada poema que a gente quando acaba de ler quer reler, reler e reler.

Tem outro poeta que pra mim, talvez seja melhor que o Drummond. Pode até ser que duvidem de mim, mas é que o estilo desse poeta que eu acho, talvez, melhor que Dru, tem um estilo fino, cheio de humor, tão encantador quanto Dru, também. Lógico que existem outros tantos poetas bons, e tantos outros poemas maravilhas. O Paulo Leminsk é outro que eu também admiro e miro seu estilo Haikai, que não rai cair nunca.

Mas, porque estou fazendo esse rodeio todo? É que Letícia chegou da escola falando que leu um poema, do Mário Quintana, chamado “O Laço”, e que se emocionou muito. Emocionou-se tanto que chorou. Ela e uma amiguinha que ela gosta muito. Ambas choraram. Perguntei-lhe se alguém não achou que ela pagou mico, já que hoje em dia qualquer coisinha os jovens acham que pagam mico. Mas ninguém achou isso delas, porque muitos também se emocionaram. É lógico que a circunstancia também contribuiu para esse momento. É que a escola dela, no primeiro dia de aulas desse ano, distribuiu um folheto para cada aluno com esse poema de Quin e houve uma leitura coletiva. Então, vamos ver o que que Quin quis falar sobre o laço ao ponto de fazer Lelê se emocionar. Eis:

O LAÇO, por Mário Quintana

Meu Deus! Como é engraçado!

Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço… uma fita dando voltas.

Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.

É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.

É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço.

E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando…devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.

Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.

E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.

Ah! Então, é assim o amor, a amizade.

Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita.

Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas bandas do laço.

Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.

E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços.

E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.

Então o amor e a amizade são isso…

Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.

Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço!

Querido aluno(a)

Um 2011 cheio de “laços de amor”!

Com carinho,

Colégio Moraes Rêgo

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

QUEM CRESCEU?

Um mês depois chegou Lelê em casa. Estava de férias em Vitória-ES com a parentada toda. As saudades eram amenizadas apenas com telefonemas. Aliás, falei um mês mas não chegou a ser um mês. Uma semana antes de completar um mês ela telefona dizendo que quer retornar. Surpresa para nós. Antes, quando ela era gurizinha, ia pra lá e só queria voltar no último minuto do segundo tempo, já chegando aos acréscimos finais e torcendo pra ter prorrogação.

Ela está querendo que retorne logo as aulas – amanhã – para matar a saudade com a galera. Saudade da matemática, do português, de geografia... é que não é. E a neguinha chegou maior do que já era. Meteu o pé na jaca do pão, toddy, chocolate e doçuras mais. “tem nada não”, disse Maurinete, “logo, logo ela entra no regime de acordar cedo e queimar calorias com o dia-a-dia escolar”. Nem me preocupo, pois ela terá seus dias de não querer almoçar e depois querer almoçar e por aí vai.

Já entrando na idade dos treze anos, na fase de pré adolescência - ou será pré aborrecência? – tem muito hormônio pra queimar e eu e Maurinete mais neurônios ainda por causa dela.

Ontem ela foi passear com nina, sua bicicleta, e estranhou muito.

Lelê: Pai, essa bicicleta diminuiu?

Eu: Não, minha filha, foi você que fermentou.

Já estou vendo que sua bicicleta terá que ser repassada para alguma criança menor. Ela, com uma bicicleta grande pelo menos agora terei companhia para apostar corrida pelas ruas do condomínio, com reclamações de Maurinete no papel incansável de mãe zelando por nossos braços e pernas em suas orações e puxões de orelha.

Lelê agora não larga seu óculos escuro, colorido, a lá Rei Start – não sei se é assim que escreve.

Eu: Peraí, Letícia, esse seu óculos está torto na sua cara.

Lelê: Não, pai, é que você está olhando com a cabeça torta.

É a lógica dela.

Os livros e cadernos escolares de Lelê já estão todos em ordem. Os cadernos, já identificados com os nomes das disciplinas, estão em ponto de bala. Lelê é o maior zelo com eles. Pelo que eu já conheço, e pelo o que eu fui quando criança, não dou uma semana pra começar a fazer rabiscos extras.

Oitava ano, sétima série. À luta!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Clássicos x gibis

Semana passada Lelê teve que ler (e aí o verbo “teve” está apropriado) Moby Dick de Herman Melville, clássico da literatura mundial, para fazer trabalho da escola. Desses trabalhos que os professores indicam o livro para o aluno fazer um resumo indicando os pontos principais da obra e outras querelas mais.

O livro era uma edição resumida, ilustrada, próprio para estudantes de primeiro grau, pois Lelê não teria pique para ler o original e açambarcar seu conteúdo. Maurinete leu o livro juntamente com ela para ajudá-la no trabalho. Ambas leram oralmente, e Letícia vai sempre perguntando o significado das palavras ou expressões e Maurinete vai aparando as arestas na interpretação do livro.

Disse Lelê que foi o pior livro que já leu. Que que eu posso fazer? Nada. O conteúdo do livro não lhe apeteceu, não lhe despertou atenção. Achou-o maçante. Quem sabe, no futuro, ela o reencontre e passe a achar o melhor livro lido, já com a visão de leitor amadurecido e amadurecida na vida. Não sei se seus colegas foram de mesma opinião.

Não naveguei ainda nas quase setecentas páginas originais da história da baleia para ver se Lelê tinha razão. Provavelmente ela tenha razão pois a visão literária atual dela é a visão de uma menina que está construindo uma leitora.

Por outro lado essa semana ela chegou em casa pedindo que comprássemos o gibi Turma da Mônica Jovem. Pelo tom de sua voz, e a gente pai percebe isso, foi influência de algum colega que já tenha lido esse gibi. Achei ótimo isso, pois adoro gibis, sempre apreciei gibis. Essa semana mesmo Maurinete saiu com ela pela cidade e comprou o gibi de Maurício de Souza, que fez esse gibi adaptando a turma infantil da Turma da Mônica para a Turma da Mônica adolescente.

Dei uma rápida olhada no gibi e vi que eram estórias realmente que abarcam o universo adolescente e, Maurício de Souza, visando esse filão do mercado de adolescentes, caiu fundo no projeto.

Perguntei para Lelê se ela queria que eu fizesse assinatura do gibi, o que ela assentiu de bate pronto. Fiz assinatura via internet e daqui a um mês começaremos a receber a revista. Percebi, e revelo descaradamente, que eu também fiquei interessado no gibi e a assinatura soou mais interesse meu do que de Lelê.

Minha formação de leitor começou pelos gibis, quando eu era criança. Eu adorava os gibis de Tio Patinhas, Pato Donald, Zé Carioca, Tom e Jerry... e mais tarde os gibis de Angeli (Chiclete com Banana), Henfil (Revista do Henfil), Laerte (Piratas do Tietê), e por aí vai.

Lelê ama de paixão os gibis do Menino Maluquinho de Ziraldo. Acho que já falei disso em algum post anterior. Praticamente já releu todos que tenho. Ela gosta de lê-los antes de dormir.

Considero que é assim mesmo: rejeita Moby Dick, aceita Turma da Monica Jovem, rejeita José de Alencar futuramente, aceita Machado de Assis aos poucos... E assim vai se processando a leitora Lelê.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Eu só sei que nada sei


Lelê: Pai, você já viu frase mais idiota do que essa: “só sei que nada sei”.
Eu: Por quê?
Lelê: Ora, se não sabe de nada, é porque não sabe, e pronto!
Eu: E de quem é essa frase?
Lelê: É do Sócrates.
Eu: Certo.
Lelê: Verdade? Pensei que fosse de Aristóteles!
Eu: Quando você estiver estudando na universidade, você irá tomar conhecimento melhor dessa frase. Quando você já estiver formada, você saberá melhor ainda o sentido dela.
Lelê: E vai demorar tanto assim pre’u saber?
Eu: Dá sétima série que você está hoje, até você se formar, você enfrentará muitos “só sei que nada sei”. Principalmente em dias de provas e testes. Num fique triste não, porque existe o lado oposto da questão.
Lelê: Como assim?
Eu: Por exemplo: Eu só sei que tudo sei porque o Brasil não foi campeão da Copa do Mundo na África.
Lelê: Mas aí não é preciso ser filósofo pra saber. Como você sempre fala, “até um bebê de touca, sabe”.
Eu: Eu só sei que nada sei sobre a morte, mas sei que sabemos que vamos morrer.
Lelê: Cruz credo, pai!
Eu: Filosofia é isso, minha filha, é questionar as certezas e incertezas.
Lelê: E por que o Brasil perdeu a Copa?
Eu: Porque Erasmo de Rotterdam, filósofo holandês, fez um Elogio da Loucura ao futebol brasileiro. Seria muito louco os holandeses ganharem do Brasil, pelo menos para os desentendidos de futebol, e, de fato, a Escola de Frankfurt é que não soube da lição correta de casa contra a Espanha e deixou que José Ortega y Gasset, filósofo espanhol, aderisse ao esquema tático dos passes infinitos, num jogo de pé em pé até atingir a meta alemã.
Lelê: Tá ficando maluco, pai!
Eu: Eu só sei que em 2014...
Lelê: O Brasil vai ser campeão!
Eu: Eu só sei que nada sei disso.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A raiz quadrada

Quando chega o período de provas de Lelê, é um deus nos acuda. Nos acuda porque eu e Maurinete temos que nos desdobrarmos para fazer toda revisão de conteúdo das provas com ela. Sem muito rodeio, acho muito estressante, tanto para Lelê como para nós. Mas não fugimos à responsabilidade e encaramos a situação. Mais estressante, percebo, para Lelê, porque tem que lidar com um volume de informação que eu e Maurinete pensamos ser um pouco exagerado. Desde que me conheço por estudante essa é a rotina de quem está nos bancos escolares.
Estava eu revisando raiz quadrada e Lelê questiona-me para que serve isso e também o conteúdo das outras matérias. É lógico que ela jogou também com o bom humor.
Lelê: Pai, para que serve eu estudar matemática se não vou ser cientista? Para que serve estudar o português se eu não vou dar aulas de português? Para que serve estudar geografia se eu não vou trabalhar no IBGE (não sei onde ela arranjou essa)?; Para que estudar filosofia se eu não vou ser filósofa? Para que estudar inglês se eu não vou pros Estados Unidos? Pra que estudar espanhol se eu não vou pra Espanha? `Pra que estudar História se eu não vou ser historiadora? O que falta mais...?
Eu: Então você queria ficar só em casa brincando? Você quer só aprender a brincar? É verdade que essa raiz quadrada que nesse momento estou revisando com você, eu não sei qual a finalidade pra sua vida. Como nunca teve na minha até hoje. (Dei essa levantada de bola para ela encher o pé e ela encheu com uma expressão facial de satisfação):
Lelê: Então, pai, é isso mesmo. Pra que ela serve? ( Procurei ser ágil e lhe dar uma resposta convincente, mas nem todo momento a resposta é iluminada, de um adulto para uma criança, sem os subterfúgios do engano, da enrolação, e eu queria ser sincero com ela. Como não tive nenhuma resposta iluminada, então empurrei o óbvio).
Eu: Olhe, minha filha, acredito que, na vida, agente tem que aprender um monte de coisas, como esse monte de coisas que você está aprendendo, mesmo que muito disso não lhe dê tanto prazer. Eu passei por isso, sua mãe passou por isso, e, acredito, que mais lá na frente tudo será recompensado pra sua vida prática. Alguma coisa positiva vai lhe ocorrer. Tenho certeza.
Lelê deu vontade de ir ao banheiro, a tardezinha já estava escurecendo e dei por encerrada a aula sobre raiz quadrada. Poxa, vida, fiquei pensando, porque essa raiz quadrada está sempre a perturbar a vida da gente desde criança? Nunca imaginei que, além de quando fui encostado na parede em prova de matemática para responder questões de raiz quadrada, eu fosse ser encostado novamente na parede por minha filha exatamente por essa bendita raiz quadrada!
Hoje entro no site do jornal O Estado de São Paulo e lá está uma matéria com Fernando Reinach, um professor graduado em Biologia em 1974 pela USP, e onde fez mestrado. Fez também doutorado na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, e pós-doutorado na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Foi sócio da primeira empresa especializada em teste de DNA e participou da pesquisa pioneira do genoma no País. Também assumiu o cargo na direção da Votorantim. Pois bem, ele fez uma palestra sobre estudo continuado lá no jornal Estadão, e ele criticou o descompasso que existe entre o que se ensina na escola e o que efetivamente se usa na “vida real”. “As coisas mais úteis que você precisa fazer no cotidiano não são ensinadas na escola. Quantas pessoas calculam raiz quadrada em seu dia a dia?”, questionou.
E agora, eu vou falar pra Lelê o que esse estudioso falou sobre raiz quadrada?

domingo, 13 de junho de 2010

Gol de bicicleta

Notícia do colégio de Lelê: Ela tem saído da sala de aulas e ido pra biblioteca, justamente na aula de matemática, segundo a coordenadora da escola. Estava se achando tranquila nessa matéria. Será? Logo matemática, o bicho papão da estudantada. Não se deve brincar com a matemática. É tanto que saiu o resultado do teste de matemática e ela se deu mau. Tirou uma nota bem vermelha. Nossa!
Com certeza eu também gostaria de ficar lendo na biblioteca e não estudando matemática. É lógico! Qual estudante, em sã consciência – se é que estudante tem consciência numa hora dessas – vai querer ficar com os olhos pregados na matamática? Sim, é isso mesmo que escrevi: matamática.
Ô Lelê, vamos primeiro aos compromissos. Porque senão vamos ter que repetir a série escolar no próximo ano. Então Maurinete foi lá na escola para tentar contornar a situação, mostrar-lhe a importância de estar presente em sala de aula, principalmente nas aulas de matemática.
Sexta-feira última tinha festa junina em meu trabalho, e já estava tudo certo pra Lelê estar lá. Ela só falava nisso durante a semana. Mas, como ela aprontou na escola resolvemos não levá-la a esta festa.
Ela ficou meio tristinha e, de última hora, resolvemos que ela iria. Tudo bem, mas a bronca foi dada. Rumo á festa junina! Iarrruuuuu!! Maurinete não foi.
Na festa, comer que é bom, ela não queria (poxa, vida, é dureza ser pai!). A guria só queria pipoca, refrigerante... Essas... Essas... Essas “comidas” que os pais não querem que as crianças só comam isso e que elas acham que a vitamina está só nessas comidas. Tô frito. Essa guria quer me testar. Com sacrifício ela ainda comeu umas carninhas, uma linguicinha (sem trema, de acordo com a nova reforma ottográfica), mas depois começou a enfiar o pé na jaca das pipocas. Também pudera, a gurizada lá presente só comia isso, como é que eu iria ter moral para barrá-la nas pipocias?
Minha conclusão foi a de que ali não era o ambiente para conscientizá-la da necessidade de se alimentar adequadamente. E nem eu tinha moral pra isso, porque não larguei meu copo de cerveja da mão. Anarriêê!!!
Comprei três cartelas de bingos – dois reais cada – pra cada prêmio oferecido: um dvd, uma bicicleta e uma televisão.
Lelê comendo pipoca, bebendo refri, eu bebendo cerveja e comendo bota-gosto, ou melhor, tira-gosto e chegou a hora do bingo. Do dvd, bulhufas, não ganhamos nada. Lelê é que marcava. Da televisão, nada. Tá cá gota! Da bicicleta, eu até saí, fui ao banheiro e dar umas voltas. Deixei Lelê marcando o bingo, e, quando volto, me falam: “tua filha ganhou a bicicleta!”. De fato, Lelê ganhou a bicicleta, das grandes.
Se tivéssemos deixado Lelê em casa, de castigo, não estaríamos agora com uma bicicleta novinha em folha. Quis o destino assim. Quem sabe o destino não vai ajudar Lelê a tirar uma boa nota em matemática também.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Religião

Estávamos indo para aula do Kumon e dei carona para uma senhora e a deixei na parada de ônibus. A mulher agradeceu com um “Deus lhe pague” e lhe respondi com um “Amém”. Reação de Lelê:
Lelê: Mas pai.... Se você não reza por que disse ‘amém’ pra mulher?
Eu: Minha filha, nós devemos respeitar como as pessoas são. Se ela tem uma religião e me agradece dessa forma, com educação, posso perfeitamente retribuí-la com palavra que ela acha que é de sua religião sem que isso me perturbe pelo fato de eu não ter religião.
Lelê Mas você não reza, pai. Insistiu Lelê.
Eu: Minha querida, eu não rezo e isso não significa que eu seja uma pessoa que... Uma pessoa que... Como direi... Que apesar de não ter religião todos os deuses de todas as religiões me respeitam.
Lelê: Como assim?
Eu: O que o Deus de sua religião e os Deuses de todas as religiões querem? Eles querem que as pessoas sejam pessoas de bem, pessoas honestas, respeitadoras (já ia falar ‘éticas’ mas evitei a extensão da explicação), e eu acredito que eu sou uma dessas pessoas, mesmo não tendo religião nenhuma.
Como percebi que ela ficou um pouco calada, provavelmente processando minha fala para ver se encontrava um pé de apoio, continuei;
Eu: Religião, minha filha, se a gente não tem, isso não significa que a pessoa seja má, você sabe muito bem disso. Como você também deve saber que existe uma pá de gente que tem religião e são uns pulhas que religião nenhuma lhe dê jeito.
Fui tentando explicar de forma bem compreensível para Lelê que o respeito entre os ateus e os não ateus deve ser respeitoso, sem que isso seja motivo de desavença. O respeito, a não agressão – de qualquer forma – devem ser cultivadas. Tentei argumentar-lhe que o exemplo reina muito bem dentro de nossa casa. Eu não tenho religião e ela e Maurinete são católicas e nem por isso nos impede de convivência pacífica e harmoniosa.
Percebi que a cabeça dela estava a mil. Ela continuava calada. Calada em termos. Ela estava dialogando consigo mesma, conversando com seus botões e chegando a conclusões que poderiam nem ser possíveis para seu nível de compreensão para sua idade da razão. Mas isso não me preocupa, pois ela chegará por si a seu entendimento no dia-a-dia de suas atribulações.