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sábado, 12 de julho de 2008

Gugu-dadá

Além deste diário escrevo um blog de artigos que tento ser engraçadinho, moderninho e chatinho. É o “oobservador” – http://www.blogedups.blogspot.com.br/ Acredito que meu amigo Alcindo seja um dos raros leitores dele, se não for o único. Escrevo porque gosto de escrever, mas escrevo de forma irregular, irregularíssima, sem compromisso, e, já no blog de minha filha, que criei há cerca de três meses, escrevo de forma regular, regularíssima, sem falhar um dia, que também escrevo com muitíssimo prazer. O Alcindo gosta mais do que escrevo para o “oobservador” porque são artigos racionais, intelectualizados, e ele fez uma observação, ou uma crítica aparente, ou velada, sei lá, porque eu estava dando atenção demais ao Leledudu em detrimento do “oobservador”, e escreveu que agora só escrevo ‘gugu-dadá’ – alusão ao mundo infantil de minha filha que discorro diariamente - motivo para o título desta postagem. Bem, feita esse preâmbulo, inicio o que quero realmente escrever.
É preciso estar conectado ao cotidiano de um filho(a) para dar-lhe muita atenção, do contrário, o tempo passa e você não vê que aquele ser que está ao seu lado no dia-a-dia é seu filho. Há alguns anos lembro-me que li num jornal que um ministro francês não abria mão de pegar sua filha na escola, podia estar em qualquer compromisso oficial, mas o horário de buscar a filha era sagrado.
Lendo matéria – recorte que Alcindo enviou-me - da revista Piauí de junho vejo duas matérias de pais também envolvidos na atenção a seus filhos. O empresário vídeo maker, o gaúcho Roberto de Moraes, era um workaholic de carteirinha e um certo dia resolveu dar um basta em sua correria disposto a dar atenção a sua família e agora tem tempo para enxergar que brincadeiras simples e sem mistério não tem preço, como, por exemplo, brincar de esconde-esconde com sua filhinha de 3 anos. Percebeu que “não é preciso nenhum evento especial, nem esperar as férias dos sonhos ou um grande acontecimento, para que sua vida se encha de significado e prazer”.
Outro exemplo é do jornalista argentino, criador do jornal Crítica de la Argentina, Jorge Lanata – em 2005 um pesquisa mostrou que ele era a terceira personalidade mais confiável da Argentina -, com uma vida agitadíssima, cheio de compromissos, mas não dispensa atenção a sua filha de 3 anos. Em meio a sua agenda de uma tarde de maio, constava, entre tantos compromissos, participação de reunião na escola da filha e depois retornaria a seus milhares de compromissos jornalísticos e empresariais.
Acredito que os exemplos dos pais que abrem mão de muitos afazeres profissionais para se dedicarem aos filhos são muitos, se dedicando a filosofia do gugu-dadá.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Religião

Por formação, Lelê e Maurinete são católicas, assistem missa regularmente aos domingos. Por deformação, ou por opção já crescidinho, não tenho religião. Lelê, vez por outra, quando dou uma derrapagem em minhas palavras, ou seja, quando falo alguma besteira que desagrade quem tem uma religião, ela puxa-me a orelha e diz, porque já ouviu alguém falar: “você precisa ter uma religião!”, ou algo no sentido de que me falta Deus no coração. Aí eu falo com ela:
DD: Você me acha mal?
LL: Não.
DD: Você já me viu desejando o mal para as pessoas?
LL: Não.
DD: Então você acha que Deus não gosta de mim?
LL: Não.
DD: Então!
É lógico que ainda é prematuro para que essa questão sobre religião amadureça em sua cabeça. Quando ela atingir o estado da razão de adulto, vamos ver se ela será católica, católica praticante ou assumirá sua fé por outra religião ou por religião nenhuma. Nem Maurinete, nem eu, nem ninguém, julgo, saberemos qual será seu futuro religioso, mesmo ela freqüentando catecismo.
Rubens Alves, psicanalista, um grande contador de histórias, um intelectual refinado, para ele “há muitos deuses, cada um com a cara e o coração daquele que o tem dentro do peito. O Deus de São Francisco não era o Deus de Torquemada. São Francisco usava o fogo do seu Deus para aquecer sua alma. Torquemada usava o fogo de seu Deus para churrasquear hereges em fogueiras que eram a diversão do povo”. De forma poética ele – que já foi pregador – se diz não saber se acredita em Deus, mas se acha um construtor de altares.
Mas esse papão tá muito complicado para Lelê entender. Nem os adultos se entendem por causa de religião imagina eu querer construir uma razão religiosa para uma criança de nove anos. Apenas desejo que ela seja uma pessoa do bem, sem complicações de credo político-religioso-afetivo. Não temos bola de cristal e o que eu quero agora, neste instante, é pegar uma bola de futebol e ir brincar com ela. Narrando um jogo: peguei a bola, matei no peito, dei um passe para Deus que também matou no peito e passou de primeira com a ponta do pé direito para Lelê que chutou também de prima para o bom senso e foi gooooooollllll!!!! Que gol bonito, minha gente, um gol de tática equilibrada, sem chutão, na medida certa, decorrente de uma jogada que veio lá de trás, até parece que tudo foi discutido até atingir o objetivo final, um gol laço pra ser elogiado, tomara que ela continue dessa forma, sempre usando o ponto de equilíbrio para desconsertar os adversários. É isso aí, minha gente!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Porque estou de férias:

Vinícius de Moraes escreveu um poema, cujo título não sei, em que ele fala: “porque hoje é sábado: não sei o que, não sei o que, etc.; porque hoje é sábado...”. Aqui copio o estilo desse poema com o início das férias de Lelê a partir de hoje.

Porque estou de férias
Quebrarei com uma marretada o meu relógio biológico
Porque estou de férias
Comerei dois pães no café da manhã com um copo de tody com leite no capricho
Porque estou de férias
Não terei horário para almoçar
Porque estou de férias
Passearei de bicicleta despreocupadamente do horário de aulas
Porque estou de férias
Conversarei com minhas duas árvores da rua sem me preocupar que achem que estou louca
Porque estou de férias
Vou ouvir o cd de Ivete Sangalo no maior volume do som do carro
Porque estou de férias
Vou pra casa de tia Dê e passar o dia inteiro jogando vídeo game
Porque estou de férias
Vou chupar chiclete sem a mamãe e o papai me aporrinhar
Porque estou de férias
A catequese também está de férias – iurruuu!
Porque estou de férias
Vou ver o Chaves, sessão da tarde, Malhação, desenho animado, desenho animado...
Porque estou de férias
Não vou lembrar dos livros da escola – ninguém merece!
Porque estou de férias
Não vou tomar banho onze horas, só o antes de dormir – se mamãe/papai deixarem, né!
Porque estou de férias

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Prisão escolar

Sinceramente, eu gostaria tanto que Lelê ficasse em casa só brincando, correndo, bicicletando, livrando, filmando, cocacolando, frutando, sucando... Esse negócio de todo dia, de segunda-feira a sexta-feira pegar a van escolar e ir para o colégio, parece como se fosse um prisioneiro naquela condição que passa o dia livre e a noite tem que retornar à prisão para cumprir pena. Chega lá na escola e Lelê é recepcionada pelo carcereiro, digo, o bedel, vigiando a entrada da prisão, digo, escola. A guarda, digo, a professora lhe dá ordens, que, se desobedecidas tem o castigo de repetir a lição do livro, digo, ficar sem tomar sol por um mês; a diretora da escola, digo, a chefe da Papuda - penitenciária de Brasília - , chamará os pais se o filho extravasou por não suportar tanta complicação matemática e o tédio de ficar confinado em sala de aula, digo, se o detento não suportar a solidão de sua alma – ou o excesso de presos por cela, provocando motim, e aí o diretor da escola chama reforço policial, digo, os pais para dar uma reprimenda daquelas. Sim, eu já sei, é assim que funciona a engrenagem da nossa formação escolar para que sejamos adultos bem sucedidos. Vai dizer que tem alguém aí, caro provável leitor, que deixou de provar a explosão de alegria quando chegávamos na escola e a diretora falava que não iria ter aulas porque tinha morrido alguma autoridade, personalidade da cidade ou do país. Hoje em dia está cada vez mais difícil, principalmente político importante – ou raça ruim de morrer.
São tantas as frases de efeito, bonitas, reflexivas sobre a escola que resolvi citar apenas uma, que achei muito legal. É do místico Jacob Boehme: “As escolas existem para transformar as crianças que brincam em adultos que trabalham”.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Ritmo acelerado

Tenho observado que Lelê não gosta de ouvir música quando a música é lenta. Tem que ser rítmica, frenética como as músicas do conjunto mexicano para adolescentes, Rebeldes, como as músicas aceleradas sertanejas, como outra música qualquer de outro cantor qualquer. Do cd de Rick Wakeman, que eu já falei dia desses atrás, quando coloco para ouvi-lo ela já fala: “coloca na música cinco!”, que tem um ritmo bem veloz. Qualquer cd que eu vá ouvir praticamente ela já sabe quem é lento e quem é ritmado e já quer avançar para a acelerada. Dizem que o corpo humano é um instrumento musical – sei lá quem afirmou isso, mas vamos considerar que seja – e se isto for verdade Lelê está mais para bateria e guitarra elétrica do que para violino e oboé. Acostumada ao ritmo veloz de desenhos animados, à linguagem rápida do clipe, ao clique acelerado no mouse para baixar imagens e textos no computador – e isso faz parte de sua geração – é provável que julguem um tédio assistir a um filme que não tenha a dicção célere do cinema norte-americano – sim, eu sei, existe filme americano de cadência branda. Quem sabe, ir a uma exposição de quadros de arte seja uma reeducação no olhar e no escultar da alma.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Cuidado p(fr)aterno

Lelê vai sozinha de bicicleta pro parquinho do condomínio brincar, e, automaticamente – só pode ser instinto paterno – a advertência é de imediato:
DD: Cuidado, filha, não aceite balinhas de ninguém muito menos chocolate – ponto fraco de qualquer criança, e mais ainda de Lelê - não aceite ir pra canto algum se lhe chamarem ou prometerem alguma coisa.
LL: Fique tranqüilo, pai, eu tenho um plano.
DD: Que plano?
LL: As férias. Não entendi nada de sua resposta.
DD: Pois com plano ou sem plano, fique de olho, bem atenta.
O parquinho é perto de casa, é tranqüilo, é seguro – supostamente – mas a neura nos tempos de hoje penso que já é natural para os pais. Principalmente a televisão, a imprensa vai tecendo no interior dos pais o espírito do medo, da insegurança, devido a violência do cotidiano repetida mil vezes nas manchetes dos jornais impressos, internet, televisão e o boca-a-boca das conversas informais da rua. Eu jamais iria pensar que fosse ficar preocupado, como outro pai qualquer quando visse seus filho(a) de nove anos, saindo sozinho pro parquinho próximo de casa. Sem perceber me enxergo exagerando nos cuidados, mas o ditado popular avisa que não adianta chorar depois do leite derramado. Falo sobre esse nível de preocupação porque vejo crianças na idade de Lelê saindo de sua escola e pegando o ônibus pra sua casa em uma cidade satélite nas cercanias de Brasília. Será relaxo ou segurança de si com os filhos? Ou eu tô exagerando na dose de preocupações? Isso será ruim pra mim e muito mais pra ela? Será excesso de zelo? Mas é bom ficar claro que não sou obsessivo.

domingo, 6 de julho de 2008

Tal qual a mãe

Acredito que os filhos procuram copiar os pais, sim. Ontem Lelê estava brincando de Maurinete, ou seja, imitando a mãe. Lelê calçou as sandálias de Mauri, pegou sua bolsa e botou pendurada no ombro e andava com os trejeitos – e exagerava no rebolado - de Maurinete fazendo compra. Para completar o quadro da brincadeira eu me passei como vendedor de loja – ela gosta quando eu participo de suas brincadeiras - e Lelê vinha em minha direção e dialogava:
LL: Bom dia.
Djandei (nome que inventei pro vendedor): Bom dia, em que posso ajudá-la?
LL/Mauri: Olha, moço, eu queria ver cerâmica porque eu estou fazendo uma reforma em casa.
Djandei: Eu tenho que saber a metragem.
LL/Mauri: Você trabalha com os produtos da Eliane? (Lelê acompanhou Mauri em compras de materiais de construção e ela já sabe o nome de várias marcas e o linguajar dos vendedores)
Djandei: Trabalho com várias marcas. Quantos metros a senhora precisa?
LL/Mauri: São cinqüenta metros quadrados. O senhor aceita cartão de crédito?
Djandei: Aceito. A entrega é pra quando?
LL/Mauri: Olha, eu vou precisar daqui a quinze dias. (Ela abre a bolsa, entrega-me o cartão, finjo que passo na máquina, ela digita a senha)
Fazia de conta que ia embora e depois retornava como se fosse outro dia:
LL/Mauri: Eu vim aqui porque o material que eu comprei ainda não chegou (falando com a voz teatralizada).
Djandei: Desculpe, senhora, é que houve um atraso na fábrica e tivemos que atrasar nossas entregas.
LL/Mauri: Então eu vou dar mais um prazo, mas estou precisando com urgência.
Djandei: Combinado.
Na profissão os filhos também querem copiar os pais, nada de novo nisso. Quando perguntamos o que Lelê quer ser quando crescer, ela responde de bate-pronto: bibliotecária. Os pais, bibliotecários, lógico que há influência.