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segunda-feira, 30 de junho de 2008

Tema tabu

Semana retrasada morreu o ator que fazia o papel do Visconde de Sabugosa no Sítio do Pica-pau Amarelo da Rede Globo de Televisão. Estávamos eu, Lelê e seu primo Allan, no meu carro, indo pro Plano Piloto e estávamos ouvindo Renato Russo. Ela não conhecia a música Eduardo e Mônica e achou o maior barato. Já tá começando a cantar as primeiras estrofes dessa música longitudinal.
Lelê: Sabugosa vai ser enterrado em Pernambuco.
Eu: O Renato russo foi cremado.
LL: O que é isso?
Allan: O corpo é todo queimado ficando só as cinzas.
LL: Eu, heim! Quando eu morrer eu quero ser enterrada em Vitória.
DD: Mas quem vai morrer primeiro sou eu.
LL: Não, vai ser eu.
DD: Não senhora, a ordem natural da vida é os pais serem enterrados pelos filhos.
LL: Mas eu vou morre primeiro.
DD: Não, vai se eu.
LL: Vai ser eu.
Allan: Vira essa boca pra lá Letícia!
Fiquei pensando como é difícil, realmente, tratarmos sobre a questão da morte, mas Lelê estava falando de forma bem natural, como criança de pensamento puro sobre esse assunto e Allan falou de forma séria, como só há de acontecer com nós adultos.

domingo, 29 de junho de 2008

Artes

Depois de retornarmos dum churrasco de uma amiga de Maurinete no Lago Norte e com fé de não sermos flagrados seis tulipas – minha dosagem - na nova lei seca, fomos eu, Mauri e Lelê, vermos o que rolava no Centro Cultural Banco do Brasil.
Fomos na exposição Casulo, de Darlan Rosa, um artista plástico daqui de Brasília. ‘Casulo’ são literalmente casulos confeccionados em aço em que a gurizada interage com as obras. É um jogo lúdico de entra-sai-sobe, o que toda criança gosta de fazer. Lelê adorou.
Em uma outra galeria vimos, digamos, uma performance do artista plástico Nuno Ramos, em que numa plataforma inclinada, de mármore, tinha caixas de som com músicas cantadas por Arnaldo Antunes - e outros - com aquele vozeirão concentrado e, protegido por uma tela, três urubus, liberados pelo o IBAMA, voavam sob o som da música do ex-titã. Ficamos admirados, mas sentimos dó dos urubus ficar ouvindo o dia inteiro aquele vozeirão de Arnaldo Antunes. Quando saírem dali aqueles urubus jamais irão querer ouvir Arnaldo, solo ou Titãs.
Andando pelos jardins eu e Lelê – Maurinete foi para a livraria - vimos dois stands e fomos até lá. Só nós dois, deparamos com ambientes recém saídos de uma farra total. Tinha garrafas vazias de wisk jogadas no chão, lixo de fim de festa, enfim, uma zorra total, e, aproveitamos para fechar a cenografia do ambiente e começamos a chutar e revirar uns banquinhos e pufes, tudo na maior algazarra com muito riso e presepada. Saímos de lá às mil gargalhadas.

sábado, 28 de junho de 2008

Provocações

● Estava eu levando Lelê pro catecismo e ia passando um cachorro e eu falei pra ela:
DD: Deus criou tudo, no mundo?
LL: Criou.
DD: Foi ele que criou os cachorros?
LL: Foi.
DD: Quer dizer que os cãozinhos quando morrem vão pro céu?
LL: Cruz credo, pai, o cão ir pro céu?
DD: Mas os bichinhos não são criações de Deus? Taí então uma boa pergunta pra você fazer à catequista.
LL: Já perguntaram isso pra ela uma vez.
DD: E o que ela respondeu?
LL: Ah, não me lembro mais.
Peguei Lelê de volta mas não insisti com o assunto.

● Estávamos eu e Lelê almoçando num restaurante onde a carne preferida da maioria da clientela é picanha.
DD: Já imaginou o tanto de vaca que é morta pra todo esse pessoal comer!
Lelê olha pra carne de seu prato:
LL: Mas isso aqui não é carne de vaca.
DD: Lógico que é. Já pensou o tanto de capim que as vacas comeram até chegar nossos pratos?
LL: Eeeecaaaa, pai!
Ela afastou o prato repudiando-o para o centro da mesa, mas de imediato puxou pra si:
LL: É... mas é gostoso, isso é.
DD: Na Índia, um país muito distante do nosso, ninguém come carne de vaca.
LL: Ah, é? Por quê?
DD: Porque lá as vacas são consideradas sagradas.
LL: Eu, heim!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Matemática pura

Estávamos passando pela Ponte JK, fluxo pequeno de automóveis, Lelê se vira pra mim e indaga-me:
LL: Pai, como é que eles arranjam tanto número pras placas dos carros sem se atrapalhar?
DD: Devido a composição das letras que tem nas placas (nem sei se é isso mesmo).
LL: Como assim?
DD: Por exemplo: olhe ali aquela placa – indiquei a de um dos carros que ora passava por nós – com três letras você forma JGH 3423, JGH 3424. JGH 3425 e assim sucessivamente até mudar as letras com novos números (continuo chutando na explicação. Não sei como é o sistema empregado pelo DENATRAN). E você sabe, né, os números são infinitos, portanto dá pra fazer um número incontável de composição de placas.
LL: Cara, é demais os números! Eles são infinitos! As vezes eu fico pensando como é que pode ser os números serem infinitos!.
DD: É, sim, eles são infinitos. Você pode começar a contar do número ‘um’ agora e você nunca vai conseguir parar de contar.
LL: É demais, cara. Quer dizer que eles vão aí pelo céu até o infinito!
Com cara de espanto e admiração:
LL: Putisgrila, é demais!
Como me deu vontade de saber, não a matemática pura da álgebra, da geometria, que a gente sempre aprende – e depois desaprende - na escola, mas a história da matemática, a curiosidade dos que inventaram os números, a história além daquela bíblica de que pra cada ovelha que passava no cercado se colocava uma pedra representando a contagem dos animais. Segunda-feira última eu e ela revisamos o primeiro capítulo de seu livro de matemática e era exatamente sobre a origem dos números, que começou com os egípcios criando os hieroglifos com representações dos números um, dez, cem, mil. São uns desenhos bem bacaninhas que Lelê curtiu pra caramba ficar desenhando-os. Duvido que na prova de matemática que ela fez hoje tenha caído alguma coisa sobre história da matemática. Du-vi-dê-o-dó. Queimo minha língua. As provas - só com resoluções de problemas e fórmulas -, desde o meu tempo de guri, e do tempo de meus pais, são para testar a memória, e sabemos perfeitamente que memória não é sinal de inteligência, e os professores têm que dar satisfação a Secretaria de Educação com notas, ou conceitos disfarçados de notas, para serem preenchidos em suas pautas escolares.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Decola, Escola!


Síndrome de provas, ou, mais especificamente, síndrome de matemática. Quem nunca teve essas síndromes que levante a mão primeiro. É isso que está acontecendo com Lelê. Sua capacidade de resolver seus deveres escolares espontaneamente, diariamente, contrasta quando chega a semana de provas, onde, parece-me, a formalidade de dizer que está estudando para ´provas` dá um trava e desaparece a espontaneidade da resolução de exercícios. E aí a trabalheira para convencê-la de que ela não poderá deixar de estudar para as provas mesmo achando ruim esse remédio amargo. Como conseqüência vem o desgaste de nosso relacionamento, eu, na forma de pai responsável, tenho que convencê-la de que o nosso sistema educacional impõe essa norma de realização de provas das disciplinas para ela obter notas suficientes para galgar a série seguinte, no caso dela a quinta série, mesmo eu achando uma porcaria esse critério de avaliação. É lógico que eu explico para ela ao nível de seu entendimento, mas o tempo vai passando e eu vou ensinando as matérias das provas dela aos dissabores por parte dela e muito mais ao meus, que tenho que engolir esse critério educacional, e aí, o que ocorre? Ocorre que ela vai “aprendendo” sem espontaneidade e eu frustrado por saber que faço parte da engrenagem de um sistema educacional que prepara nossos filhos, e de tabela os pais, para sermos engolidos pelo sistema maior, a própria sociedade, o mercado de trabalho futuro. Poderia eu fazer como alguns pais que foram motivo de belas reportagens em jornais que simplesmente retiraram seus filhos da escola – um caso em Minas Gerais que vi num jornal – e assumiram a formação escolar da gurizada e comprando briga com o Estado quanto as formalidades para quando a molecada for entrar na universidade com a obrigatoriedade de certificados, freqüência escolar etc. Se eu for fazer isso já vou comprar briga dentro de meu próprio terreiro familiar, Maurinete não vai aceitar e mais um milhão de amigos e parentes. Mesmo porque aí já vem os questionamentos de ordem prática do cotidiano: Lelê seria uma menina de poucos amiguinhos, já que na escola há um monte? E a sua convivência social? É... É muito complicado. Bem, enquanto isso, vamos aguardar as notas de Lelê da escola e vamos procurar dar continuidade na construção do boletim de seu dia-a-dia com brincadeira, leitura, cinema, teatro, gibi, chocolate, leite com toddy, muito pão, bicicleta, piscina, brincar na terra, eu carregá-la nas costas – mesmo que Mauriente diga que eu vá arrebentar minhas costelas -, televisão, esconde-esconde, futebol, pirulito, chiclete – que nós chamamos de ´corim´-, andar o tempo inteiro descalça, comer picanha, comer esfirra com refrigerante, reler o Diário de Julieta do Ziraldo, ver o filme Polyana pela milésima vez e não reler o livro, ir ao catecismo, ver uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, viajar de férias pra Vitória-ES, limpar a meleca do nariz e eu perguntar se vai ter festa no salão, ver o Chaves no SBT, ouvir REBELDES, reticências, etecetra.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Desculpa

Lelê é uma criança que não gosta de pedir perdão por seus erros (erros de criança eu nem sei se são erros), não quer falar simplesmente “perdão” por uma bobagem qualquer, como se pedir (vamos substituir ‘perdão’ por ‘desculpa’) ‘desculpa’ fosse cair pedaço da gente. Pacientemente vou mostrando-lhe, no dia-a-dia, que pedir desculpa por algum deslize que cometemos é educação, e reconhecermos nossos erros é um alívio pras distensões internas, a chamada ‘alma’. Resumo: Lelê tem vergonha de pedir desculpa’’, não está no seu âmago falar essa palavrinha de forma espontânea. Eu e Maurinete continuamos tentando através de gestos significativos para ela falar essa palavra mágica de sentido educativo. Qualquer coisa que eu faça que ela não goste eu digo “perdão”, “me desculpe”, e quando ela faz algo que me desagrade, uma coisa boba qualquer, falo: “peça perdão”, e ela balança a cabeça com um risinho contido no canto da boca, diz uma negativa balbuciante “um hum”. Mas, água mole pedra dura, tanto bate até que fura. Neide me chamou e falou que queria falar comigo uma coisa de Letícia – Letícia estava presente. Já imaginei que Lelê lhe tinha feito alguma ofensa.
Neide: “Seu” Eduardo, eu quero lhe falar um negócio que aconteceu com Letícia.
DD: Por favor, não esconda nada.
Neide: Ontem Letícia me desagradou e eu fechei a cara pra ela, pra ela saber que eu não gostei do que ela fez.
DD: Sim.
Neide: Mas o que eu quero falar mesmo é que ela me procurou, agora mesmo, e me pediu desculpa – Lelê, que estava presente, como já falei, começou a sorrir juntamente com Neide, como se estivessem comemorando a vitória de um gesto.
DD: Gente! Que lindo, isso é maravilhoso. Chama uma banda de música aí – e começamos (eu e Neide) a cantar os “parabéns” e Lelê ficou toda fofa, toda cheia de si, percebendo que pedir perdão não tira pedaço de ninguém, não morde ninguém. Dirigindo-me a ela:
DD: Tá vendo como isso é bonito, que é atitude de gente educada! E lhe abracei, lhe beijei e lhe afaguei. Nós três ficamos encantados.
A noite, não sei o que ela falou pra mim – nem ouvi –mas Maurinete ouviu e achou que era falta de respeito e falou pra ela pedir desculpa e ela pediu. Se seguir nesse ritmo receio que em breve teremos em casa uma Madre Teresa de Calcutá.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Cotidiano

Ontem Lelê acordou cedo, as seis e trinta ela entrou na cozinha – eu estava fazendo café – e pegou em minhas mãos e me arrastou pra dançar cantando: “acorda Maria Bonita, levanta vem fazer o café, que o dia já vem raiando e a polícia já tá de pé...”, (só agora percebi o final dessa frase com os quatro monossílabos: “játádepé”. Até parece nome de cidade do interior. “Onde você mora?”, “moro em Jatadepé”. Sonoridade gostosa) música que ela aprendeu na Escola Parque. Nunca a vi com tanta astral como hoje. Pegou Maurinete também e ficou dançando com ela.
Sou eu que faço o café da manhã pra nós. Até parece a música de Chico Buarque (adaptação minha): Cotidiano

Todo dia Dudu faz tudo sempre igual
Sacode Lelê/Mauri às seis horas da manhã
Lhes sorri um sorriso pontual
E as beija com a boca de “acordem!”

Todo dia Dudu diz que é pra elas se cuidarem
E essas coisas que diz todo marido/pai
Diz que as esperará pro jantar
E as beija com a boca de “agora!”

Todo dia Dudu só pensa em poder parar
Meio-dia só pensa em dizer não
Depois pensa nas meninas pra levar
E se cala com a boca de rubacão

Sete da noite como era de se esperar
Dudu pega e as espera no portão
Diz que está louco de saudades
E as beija com a boca de paixão

Toda noite Dudu diz pra elas não se afastarem
Meia-noite ele jura eterno amores
E as aperta quase as sufocando
E as sacode com a boca de preocupação

Todo dia Dudu faz tudo sempre igual
Sacode Lelê/Mauri às seis horas da manhã
Lhes sorri um sorriso pontual
E as beija com a boca de “acordem!”.