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sexta-feira, 7 de maio de 2010

A menina do tempo

Tem mensagens que recebemos via internet e gostamos muito. Outras, nem tanto, mas em consideração aos amigos lemos e outras, que não temos afinidades, deletamos. A internet é um grandiosíssimo mural onde todas as formas de mensagens e mensageiros que querem ser lidos, vistos e ouvidos, estão.
Nem sei porque teci essa consideração boba aí nesse parágrafo acima. Ah, simplesmente porque queria dizer que Lelê recebeu uma mensagem que lhe chamou muito a atenção e ela quis compartilhar com seus amigos e amigas da escola.
Vi um pedaço de papel no chão da garagem e peguei e abri. Era a letra de Lelê. Provavelmente deixou cair de sua mochila e não percebeu. O conteúdo da mensagem, que ela transcreveu da internet, e que lhe chamou a atenção foi: “Previsão do tempo para semana: Hoje pancadas de bençãos cairão em seu coração e chuvas de felicidades inundarão a sua vida, e duarante a semana nota-se grandes nuvens de alegria vindo do céu em sua direção, com trovoadas de amor, carinho, proteção e muita paz. Tenha um ótimo dia!”. Deve ter sido de alguém muito religioso, fervoroso na fé divina.
E se o assunto é o tempo informado na televisão, Lelê adora. Adora porque gosta de ver o clima de Vitória-ES. É só as garotas do tempo, em noticiários, entrarem na tela de tv e Lelê corre pra prestar atenção. Só vi uma pessoa pra gostar mais do que Letícia de notícias sobre o tempo. É nosso amigo paulista, digo, brasiliense, Alcindo. Recebo também recortes de jornais dele sobre como está o tempo em São Paulo, Curitiba e outras capitais que ele adora. Acho que vou colocar os dois para fazer um programa sobre meteorologia.
Hoje quando Lelê estava saindo de casa, por volta de seis horas, o Sol estava nascendo, muito bonito. Se, dizem, que o Sol de Brasília é um dos mais bonitos, hoje Ele estava se exibindo. Lelê então abriu os braços e disse de forma suave, a comprimentá-lo: “bom dia, querido Sol!”.
E o dia de hoje foi realmente gostoso. O Sol parece que ouviu a saudação de Lelê e ficou muito contente pelo resto do dia. Duvido que tenha acontecido de alguma menina ter saudado o Sol hoje de manhãzinha quando Ele estava acordando. Até parece que eu estava vendo-O se espreguiçando. E se não me engano vi-O dando uma piscada de olho pra Lelê em agradecimento pela sua educação. Só faltou falar: “Obrigado, Lelê, e um bom dia pra você também!”. Só faltou falar, não. Eu ouvi, sim, Ele retribuir o cumprimento de Lelê.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Esqueceram de mim

Toda sexta-feira Lelê gostava que eu a pegasse no colégio. Só assim ela viria direto pra casa pelo menos um dia da semana. James, motorista da van escolar, já sabia que a volta de Lelê às sextas-feiras era comigo. Mas Lelê percebeu que eu chegava sempre no horário certo, às doze e trinta, e ela, então, não teria mais tempo para zoar depois da aula com a galera.
Reivindicou, então, que preferiria retornar com o motorista da van, James, só pra dar tempo brincar mais um pouco. Tudo bem, o James já estava acostumado a não pegá-la as sextas-feiras, e, eis que, nessa última sexta-feira ele esqueceu de pega-la.
Já tinha eu chegado em casa, pouco mais de 13 horas. Almocei. Deu 13:40 h. e Lelê nada. 13:50 h., e necas. 14:00 h. e nadica. 14:10 h. As vezes o James atrasa porque pega algum engarrafamento no Plano Piloto. Ligo pro James. “Ô, seu Eduardo, eu pensei que você é que ia pegar Letícia, desculpe...”
De imediato ligo pra Maurinete no trabalho e ela já tinha ido embora. Ligo no celular. Ela já estava a caminho de casa. Explico a situação e ela retorna do meio do caminho e vai buscar Lelê no colégio.
Depois Lelê comentou que nem mais lembrava que alguém ia pegá-la.
Eu: Você não ficou com saldades da gente, não?”.
Lelê:Eu, não!”
Eu: Você não estava com fome?
Lelê: Eu, não!
Eu: Você não estava com sede?
Lelê: Eu, não!

É muito bonito a sinceridade da criança. A bichinha estava tão empolgada com as brincadeiras com a galera que pai e mãe pra ela eram seres inexistentes. Corretíssimo. Lembro-me quando eu era criança era a mesma coisa. Terminava a aula e eu ia brincar de bola e esquecia do mundo, e de seus habitantes. Chegava em casa e minha mãe já estava preocupada. É muito gostoso brincar.
Disse Lelê que esse foi um dia maravilhoso, porque deu pra brincar bastante, e quase que ia assistir ao ensaio de uma peça de teatro da galera do nono ano, quando Maurinete chegou para pegá-la. Lamentavelmente.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Parabéns, Lelê!

Lelê falou pra mim e Maurinete que a apresentação do trabalho sobre a leitura do livro Pescadores de Pedras, de Maga Moraes, ela tirou nota 1 (um).
Maurinete: UM!, minha filha, isso não é pouco, não?
Eu: Você não entendeu nada do que leu? Não é possível!
Lelê: Entendi tudo e tirei UM!
Antes que Lelê deixasse a gente continuar super decepcionado fez a explicação.
Lelê: Sim, tirei UM! Sabem por quê? Porque o trabalho só valia UM!
Mauri/Eu: Aaahhhh, booommm!!!!
Ufa! Nós não estávamos querendo dar bronca nela por seu insucesso, mas já iríamos questioná-la onde estava o erro, principalmente Maurinete, que acompanhou-a na leitura desse livro. Há umas três semanas elas leram-no, principalmente no carro, quando, de três a quatro vezes Maurinete foi deixar Letícia na escola, ao invés do James da van. Maurinete dispensou a van escolar exatamente para Lelê ir no carro lendo para ela, Mauri. E esse processo de se ler, ela escutando a si a estória, provocou nela, além de seu grande interesse pela a aventura das personagens, um efeito muito bom pra ela tirar essa nota máxima. Outra coisa: Maurinete a orientou para fazer fichamento do livro. Teve um domingo aí atrás que eu vi Lelê com o livro e um caderno, sentada no banco do jardim daqui de casa fazendo suas anotações.
Resultado: Hoje Lelê disse que falou pra turma, a pedido da professora, o conteúdo do livro. E aí ela começou a falar pra mim e Maurinete toda a estória dele. Nossa, senhora, eu nunca a vi falar toda a estória do livro, assim, de cabo a rabo, com riqueza de detalhes que nem Maurinete lembrava mais – eu não li. Ficou narrando cerca de uns dez minutos ou mais. Ficamos bestas. E não gaguejava, não. Era uma fala fluente. Estou falando isso não é por vaidade de pai e mãe, não. É por sua narrativa ininterrupta, bem explicadinha. A menina tava com a memória super afiada. Como recompensa já aumentei a mesada dela pra vinte reais (são quinze) e Maurinete vai bancar uma rodada de sorvete. E aí eu e Maurinete começamos a questionar:
Mauri: Por que será que pra outras matérias ela não tem essa capacidade? Por que ela não está afiada em saber o que é o PIB, reforma agrária, comércio das civilizaçoes primitivas... Esses assuntos que os livros estão pedindo para ela estudar pras provas?
Eu: Ora, tá na cara que esses temas são pedregulhos em relação à leitura desse livro que Lelê disse que amou em lê-lo. Dizem que nossa memória se prende ao que temos de interesse. PIB? Reforma agrária?... Se Lelê quer se preocupar com isso! Quer saber é de livros de aventuras, como foi esse que ela leu.
Ficamos exultantes com essa performance de Lelê. Deixo claro que Lelê não é uma aluna exemplar. Longe disso. É uma aluna mediana, sem rasgos de genialidade, com dificuldades em matemática, como a maioria dos alunos.
Em tempo. A estória do livro é: “Alexandre e Diana vivem uma aventura inesquecível. Durante as férias, eles acompanham o pai paleontólogo a um sítio arqueológico no Ceará e se descobrem em meio a uma rede de contrabando de fósseis brasileiros, envolvendo desde modestos habitantes da região até uma poderosa gangue estrangeira”.

terça-feira, 4 de maio de 2010

A poesia

O que que uma tarefa de escola não nos leva a fazer.... Para Letícia levou a escrever uma poesia. Não sei qual o contexto, mas só sei que a professora de Lingua Portugesa II solicitou essa tarefa. Lelê me sondou e a Maurinete. Depois de conversa pra’qui, conversa pra’colá, ela, sob a orientação de Maurinete para aparar as arestas e orientá-la foi arredonando um texto, que deu no que vai aí abaixo.

Oh, Vida Cruel!

Tem que comer fruta
Tem que comer verdura
Não pode comer chocolate
Não pode beber refrigerante
Não pode comer batata frita,
Por que tem que se ser magra?
Ser magra é ser bonita?
E mais: tem que se dormir cedo
Para muito cedo acordar.
Não pode brincar na rua,
Então, o que posso eu?
Estudar...

É lógico que não é preciso ouvir o comentário de nenhum especialista em literatura pra se saber que Lelê não tem tendência para a poesia, não tem a menor chance para ser poetisa. O que vimos foi um desabafo, um protesto porque suas guloseimas não lhe chegam fácil, não saciam seu estômago infante, de prontidão para recepcionar o açucar e os salgadinhos.
Mas como pai, não posso deixar de registrar um afeto pelo seu desempenho, sua intenção válida. Não, nunca vai ser uma Cecília Meireles mas, pelo meno para mim, ela expressou o paladar dos quitutes da globalização, da gurizada fermentada pelos temperos mcdonaldenses, como Cora Coralina manifestou a gostosura dos quitutes do século passado nos fornos de lenhas de Goiás Velho. Lelê, no asfalto quente de Brasília, Cora Coralina nas pedras de ruas repletas de histórias e estórias temperadas por seu sabor literário.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Consciência ecológica

Costumo deixar uma garrafa d’água numa mesa da biblioteca, para não ficar descendo toda hora lá na cozinha para pegar o precioso líquido para beber. Lelê observou que eu encho muito essa garrafa, o que pode derramar o h2O quando ela vai botar água no copo. Ouvindo isso, Mauri comenta ironicamente:
Mauri: Minha filha, eu ficaria muito mais satisfeita se você diminuisse um pouco mais seus banhos. Você iria economizar muito mais e o planeta agradeceria.
Lelê: Mas mãe, isso é desperdício d’água. A natureza vai agradecer se meu pai economizar água, os rios vão ficar bem felizes!
Eu: Peraí, gente. Eu não derramo uma gota d’água dessa garrafa. Se você acha que vai derramar, Letícia, então peça pr’eu botar água no seu copo!
Lelê dá por não ouvir e continua com sua pregação ecológica.
Lelê: Você já imaginou, as plantinhas bebendo uma gotinha de água que a gente perde por aí?
Eu: Sim, já imaginei. (Embarquei no discurso ecochato de Lelê). Um mundo muito mais verdinho sendo aguado pelas gotinhas de água de minha garrafa d’água. Um mundo muito mais cheio de água se não houvesse as fábricas de refrigerantes que consomem muita água para fazer refrigerantes coloridos e artificiais e estragar sua saúde e a saúde de nosso planeta. (Vi a hora Lelê falar: “não, pelamor de deus, preservem minha coca-cola!).
Com esse nível de discussão sobre a sustenção de nosso planeta, ia até propor às minhas duas meninas, participarmos de uma mesa redonha na próxima reunião de Copenhague e debatermos se as gotas d´água desperdiçadas de minha garrafa d’água e os minutos a mais do banho de Lelê afetarão ainda mais o aquecimento global a quase dois graus centígrados, o que é um absurdo, em termos de planeta.
Maurinete já havia saído da biblioteca, provavelmente por acreditar que se não estamos chegando a um acordo diplomático sobre nossos recursos hídricos caseiro, imagine aquela conferência mundial do clima em Copenhague, em dezembro do ano passado, com 194 países do mundo. Ou seja, naquela conferência eles não conferiram nada.
Lelê também se retirou da biblioteca e eu fiquei a olhar aquela garrafa d’água na mesa, e me lembrei que omiti pra Lelê o gasto d’água pra se produzir cerveja.

domingo, 2 de maio de 2010

Responsabilidades extremas

Fomos almoçar na residência de Valdim, meu irmão, e, quando chegamos em casa, por volta de pouco mais de 14:00 h., Lelê foi logo pedindo para ir estudar o complemento da matéria de história, pois, segundo seu planejamento, ela queria parar por volta das 19:00 h. Assim mesmo, sem ninguém pedir, ela estava querendo estudar.
Ontem a noite ela queria resolver o bloquinho do Kumon de matemática que era pra hoje. Disse que estava tão interessante que não estava se agüentando pra fazer esse dever.
Já a noite, antes de dormir, ela já havia tomado banho sem que ninguém pedisse, e, Maurinete pediu que ela já arrumasse seu uniforme escolar pra amanhã. Ela já tinha arrumado. Então Maurinete pediu que ela organizasse seu material das aulas de amanhã na mochila, e, ela já tinha feito isso há muito tempo. Disse-lhe eu que ela estava uma verdadeira “quando você vinha com a farinha eu ia com a farofa”.
A toalha de banho dela já estava estendida no varal, seus tênis já estão prontos com meias dentro pra não se atrasar amanhã para ir à escola. Em síntese, a menina estava numa aplicação que chamou nossa atenção.
Maurinete: Minha filha, - falou rindo -, o que está acontecendo com você? Num estalar de dedos você está fazendo tudo direitinho! Será que houve algum deslocamento de alguma peça em sua cabeça? Tem certeza que tá tudo normal com você? – Lelê fica só rindo.
Eu: Peraí, filhinha, deixe-me ver se você está com febre. – Coloquei a mão em sua testa e na garganta – e ela só rindo. Continuei: vem cá, filhinha, diz prá mim, o que você está querendo ganhar, diz aqui pro papai. E ela continua apenas rindo e envaidecida com sua própria eficiência.
Eu e Maurinete, boquiabertos com suas ações eficazes, estamos torcendo que esse vírus se prolongue por muitos e muitos dias, quiçá meses, mas estamos preparados também para o comum das negligências a partir de amanhã.
E assim caminha a criançada.

sábado, 1 de maio de 2010

Lição de escola, lição de vida

Poxa, vida, hoje o dia está maravilhoso, um sol gostoso, uma temperatura gsotosona, dia próprio pra dar um mergulho na piscina, dar umas braçadas com fôlego. Dia bom pra jogar uma cinuquinha com Lelê, pois ela é meu sparring. Dia bom pra dar uma esticada bem grande na leitura das 720 páginas do livro O Reacionário, de Nelson Rodrigues, que estou lendo a conta-gotas para não acabar rapidamente de tão gosto que está. Dia excelente pra ir a uma exposição que a EMBRAPA está apresentando e dizem que está maravilhosa, e que Maurinete está querendo muito ir. Dia propício para nós três irmos à exposição OS GÊMEOS – Vertigem, onde dois artistas irmãos apresentam telas e obras interativas que brincam com os sentidos visuais, auditivos e táteis dos visitantes. Dia bom pra tudo.
Se está tão bom, por que não ir desfrutar tudo isso? É... Mas o dever nos chama. Qual dever? O dever da escola de Lelê. Vixe Maria! Maurinete está dando uma orientação prum teste de geografia pra segunda-feira, e o pior é que temos percebidos que cada vez mais os textos desses livros são extensos, abarcando assuntos que até parece que a guria está apresentando um pré-projeto pra sua dissertação de doutorado. Eu, sinceramente, não sei se isso surte efeito prático, ou teórico, pra formação desse pessoal de hoje em dia, não. É muita, mas muita mesmo, matéria para estudar. Tenho que ajudar Lelê em um reforço em matemática, o bicho papão desde o tempo de Adão e Eva, porque o material está acumulando e estamos vendo a hora a coisa se desembestar. Ela tem que estudar inglês do colégio porque ela não se deu bem no ano passado. Ela tem que ver o conteúdo de ciências, que também é extenso, pois já está se aproximando o teste. Ela tem...
É muito conteúdo pra uma criança só. Fico até questionando se os pais não percebem isso, ou sou eu que estou subestimando a capacidade cognitiva de nossa filha. Bem, criança gosta mesmo é de brincar, isso todo mundo sabe, e, se deixássemos, Letícia ficaria só estudando e não teria mais tempo para brincar. Mas aqui em casa o que eu e Maurinete estabelecemos foi que, até as dezenove horas, mas ou menos, o que ela estudou, estudou, e ponto. Depois pode se mandar pra ir brincar com a galera na rua. De certo modo isso tem funcionado porque pelo menos ela acelera o interesse pelos estudos para poder brincar a noite.
O mundo moderno exige um volume descomunal de conhecimento e regras das pessoas que querem, simplesmente, ter uma formação, trabalhar e ser feliz. Mas será que esse mundo acelerado não irá impor essa trinca para as pessoas e fazer com que elas deixem de usufruir a vida?
Será que estou falando besteira?