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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

The book on the table

Depois da janta Lelê pede a Maurinete para fazer um cafuné na barriga dela.
LL: Mãe, massageia aqui minha barriga.
Mauri: Não senhora, vamos massagear seu cérebro pra terminar de fazer os deveres da escola.
Hoje LL aprendeu na aula de inglês as cores básicas e os nomes de algumas frutas. Treinou comigo e mais tarde com Maurinete. Também aprendeu algumas frases de cumprimento e tive que repetir várias vezes para ela articular bem sua fala o “what’s your name? My name is...”. Vamos ver se a guria não vai ficar, como os pais, no vergonhoso “the book on the table”. Mesmo tarde eu e Mauri já estamos providenciando o estudo de inglês de forma séria. Estou terminando o curso de português no Kumon e logo a seguir vou engatilhar o curso de inglês juntamente com Maurinete. Agora ou vai ou racha. Com Letícia dando seus primeiros passos acreditamos que vai ser bom para os três. Lelê também está estudando o espanhol, como obrigação curricular do MEC. Ela está adorando porque foi sempre o sonho dela estudar espanhol, simplesmente por causa dos Beatles dela, que é o RDB, conjunto mexicano que arrastou Brasil a fora milhares de crianças com suas músicas, suas músicas... Sei lá como definir aquilo! São nessas horas que a gente bota a mão na cabeça e pergunta: “meu deus do céu, onde foi que errei?”.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Parem o mundo que eu quero descer!

O bicho está pegando. Pintou um desespero em Lelê e ela começou a chorar. A questão é que, desde o jardim da infância ela tinha sempre um professor, e agora ela tem para cada disciplina – e é disciplina mesmo! – um professor. De português a ciências, passando por filosofia e artes são quase dez professores. De repente a menina viu que as tarefas de casa cresceram de volume, a descentralização professoral a cobrar deveres e mais deveres todos os dias assustou Lelê. Chegou vinte e uma horas e as tarefas não estavam prontas. E o chororô tomou de conta da guria. A ajuda de Maurinete lendo textos para ela entendê-lo para responder questões e eu dando uma mãozinha em desenho – sou bom para reproduções de desenhos – foi uma mão na roda para acalmá-la e fazer com que ela comece a perceber que ela agora tem que se organizar, administrar seu tempo para não se perder com as tarefas escolares.
Isso significa que Lelê começa a adentrar o mundo da trituração do pequeno ser singelo que era, a criança despreocupada com o tempo e com nada, para entrar no mundo da competitividade escolar, mesmo que todas as escolas digam que não, que a escola formará uma cidadã para um futuro promissor. Mas sabemos que, no fundo no fundo a globalização, o mundo moderno, o liquidificador das intempéries contemporânea é um caminho sem volta. Do contrário, quem não seguir esse ritmo cairá no isolamento. Resta-nos, como pais, aparar as arestas das angústias da modernidade para que Lelê, todos nós, não sejamos apenas um dado estatístico jogado na mesa de negociação de Dôrra. E nós vamos conseguir isso?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Burocrata

Cinco e quarenta. Tudo escuro. A matina dorme, o sol dorme, Maurinete dorme, o galo dorme, a lua dorme, o mundo inteiro – para Lelê – dorme. Inclusive o Japão lá do outro lado do mundo. Sonolenta, irada com o horário de verão, tomando café nesse horário, Lelê indaga:
Lelê: Pai, quem inventou essa droga de horário de verão?
Dudu: Algum burocrata fela que deve ir pro trabalho lá pelas dez horas.
LL: E o que é fela?
DD: Esquece.
LL: Não, fala pai, fala!
DD: Tudo bem: significa filho-da-puta.
LL: E burocrata?
DD: É a mesma coisa.
LL: Um dia desses um motorista deu quase uma fechada na mamãe e ela falou alto pra ele: “seu filho-da-puta!” . Então ela podia ter dito “burocrata!”.
DD: Exatamente. Ou se não de ‘burrocrata!”. Mas essa escuridão não é em todo canto não. Lá em Cajazeiras, na Paraíba, quando é cinco horas da manhã o sol já apareceu.
LL: Ê povo de sorte!
DD: Mas quando é seis horas da noite já tá tudo escuro.
LL: Ê povo de azar!
DD: E assim caminha a desumanidade. Esse sacrifício todo, minha filha, é pra a gente adquirir conhecimento. Todo dia você vai aprendendo um pouco. O conhecimento não vem assim, tudo de uma vez só, derramado em sua cabeça. Acordar cedo pra ir pra escola, estudar, fazer dever... Num tem jeito, todo mundo é assim. É lógico que tem gente que estuda a tarde e também pode pegar uma lombeira em sala de aula depois do almoço, ou cochilar a noite depois de um dia de trabalho.
LL: Pai, e...
DD: Iche, maria, olhe a hora,minha filha, são seis e dez, o James Dean já está passando na van! Vamos, escove os dentes, rápido, senão vamos atrasar!

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A conta da escola

Quando fomos comprar os livros de Lelê na Livraria Saraiva ela entrou no ambiente e exclamou um “hummmmm!!!!, que cheirinho gostoso!”. Referia-se ao odor de livro novo que exalava em todo ambiente. Maurinete manifestou interpretação de “essa menina realmente vai ser uma bibliotecária”. Ela, lógico, ficou toda cheia de si. A convite dela, Lelê, fomos dar um giro pelas estantes, folheando livros, observando materiais escolares, farejando a criatividade das histórias dos muitos escritores ali presentes. “Olha, pai, o Menino Maluquinho na capa do caderno!”. Em tudo quanto é material estudantil a gente encontra o Menino Maluquinho do Ziraldo. No livro de português de Lelê, tá lá ele, em tirinhas. Se a gente não toma cuidado sai atropelando esse el pibe piola por tudo quanto é folha de papel ao vento. Ziraldo: o homem-fábrica do little boy.
Os livros didáticos Lelê não tinha como escolher, mas os cadernos ela escolheu de acordo com o seu deleite atraído pelo o charme consumista das capas, retratando o estilo infantil feminino. Livro literário não foi dessa vez que compramos, a conta dos didátticos estava salgada, mas em casa ela ainda tem vários livros para ler.
Oh, santa classe média, ainda temos que comprar uma mochila, jaleco – para a aula de artes -, o livro de inglês para a Casa Thomas Jefferson, sem contar a despesa com o transporte escolar – a van de James Dean. Será que o motorista da van é fã mesmo do James Dean?

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Café-com-leite filosófico

Dá dó –percebi o cacófato – ter que acordar Lelê às cinco e trinta da manhã. Tudo escuro, a madrugada ainda está vivíssima, nem um galo pra a gente ouvir cantar. Se bem que, pelas redondezas daqui de casa não existe esse despertador natural. Depois que o celular toca sua sineta tenho que tirar Lelê de seu sono profundo. Incrível, ela não faz cara feia, não faz jogo de querer ficar mais um pouquinho na cama, nada. De imediato ela se levanta e já vai buscar sua toalha pra tomar banho. Se arruma e o café já deixo pronto na mesa pra ela. Hoje, não sei se foi por displicência ou por sono, deixou derramar café-com-leite na blusa do colégio. Ainda resmungou um tipo “nojo!” pelo o auto incidente. Maurinete correu e conseguiu limpá-la a tempo sem prejudicar seu uso. Esse fim de semana ela vai ser lavada. Ontem era sua primeira aula de filosofia. Que o pingado derramado não estragasse seu dia. Não adianta chorar pelo leite derramado. Deu até vontade de lhe falar pra derramar o café-com-leite na caneca da filosofia. Sua caneca é profunda – se coloco outra caneca, que não seja a dela, a reclamação logo surgirá - suporta xingamentos matinais, mas só até antes do pôr do sol. Não lhe falei isso por que sua anima ainda estava nos lençóis da cama, repousando no travesseiro. Lelê iria soltar um “o quêêê!!” e eu iria respondê-la: “Não se preocupe, filhinha, isso aconteceu porque eu cortei seu pão com um corte epistemológico, a faca estava muito amolada pela refratalidade Kantiana, e aí a manteiga escorreu pelos ditames Kierkegaardiano”. Exclamativamente Lelê diria: “Pai, você tá maluco? Você já se acordou?”.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Café com leite

Estávamos nós três jantando – Madulê – e Lelê estava falando-nos de como tinha sido sua primeira aula de inglês. Todos tinham que falar somente em inglês, a exceção dos café-com-leite. Café-com-leite? Que que é isso? São os alunos que começam a estudar inglês pela primeira vez e podem falar em português na aula, por enquanto. Lelê aprendeu o alfabeto, os números ordinais até dez e mais algumas frases de cumprimentos.
A televisão estava ligada no Jornal Nacional da Rede Globo e eu estava escutando-o em off, com uma vontade louca de ver a reportagem que falava de Barak Obama. E aí, ver o Jornal Nacional ou prestar atenção em Lelê falando com entusiasmo de sua primeira aula de inglês na Thomas Jefferson? É lógico que eu escutei Lelê, e Obama ficou pra amanhã, pre’u saber se ele é um café-com-leite que está agindo com habilidade ou não. Se ele é um café-com-leite no enfrentamento da atual crise econômica global. Só não posso dizer, em absoluto, que José Sarney e Temmer são cafés-com-leite nas presidências do Senado e Câmara respectivamente. Pela terceira vez ambos ocupam as presidências daquelas casas. Esse é o Brasil que vai pra frente, novidadeiro, país pra inglês ver. Lelê começou a pronunciar o alfabeto inglês pra gente lhes dizer se estava correto ou não, e a letra ‘a’ estava errada, ela pronunciou ao pé da letra, coisa que os três políticos acima citados não farão em seus mandatos. Yes, they can, com suas lógicas políticas que Lelê não está interessada em saber e nem eu quero falar. Bái!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Que saudades!

Todo início de ano é isso: cadernos novos, livros novos, tudo novo. Então, vamos caprichar para que tudo continue novo até, pelo menos, no fim do ano, e, para que tudo fique conservado só resta cobrir, principalmente, os livros com plástico. Sobrou pra mim essa tarefa. Eu já tinha os plásticos grossos e transparentes, e comecei a cortar daqui, aparar acolá, dobrar aqui, durex colando nas pontas dos dedos e eu dando currulepe – o Aurélio não registra essa palavra: sacudir os dedos velozmente no ar para que se descole o durex das pontas dos dedos – e o bicho nada de despregar de meus dedos. O importante é que o material estará, provavelmente, protegido de dedos gordurosos de quando Lelê terminar de almoçar – num tem jeito, criança acaba esquecendo-se de lavar as mãos por mais que você oriente.
Fui encapando os livros e lembrando de quando eu era criança e tinha também meus livros cobertos para não sujá-los, até o fim do ano não digo, mas até o fim do primeiro mês... vá lá. A letra caprichada nas primeiras páginas dos cadernos Lelê disse que iria fazer, como eu também fazia. Só nos primeiros dias, lógico.
É muito agradável cheiro de livro novo.