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sábado, 31 de maio de 2008

Cabuloso

Maurinete trouxe pra gente ler o livro “Literatura Infantil: gostosuras e bobices” de Fanny Abramovich e eu estava lendo e Lelê viu e gritou:
LL: Olhaí, pai, a Fanny Abramovich é a autora de “Pacto de Sangue”, aquele livro que a gente leu, livro fera. (É verdade, lemos esse livro há poucos meses).
Li um pouco do livro pra Lelê em que Fanny fala que quando criança ela era uma leitora compulsiva, é tanto que, quando ela tinha uns 9 anos de idade os pais dela matricularam-na na (percebi o cacófato) União Cultural Brasil-Estados Unidos pra aprender inglês, porque já havia lido tudo o que havia sido editado para crianças, naquela época, em português.
LL: Pô, pai, isso é cabuloso (falou encantada).
Sinceramente, não sei o que significa “cabuloso”. No sentido dessa frase aí acima, de Lelê, significa que a Fanny era fera, irada, duca, porque no dicionário, fui ver, significa “aborrecido, importuno, que tem ou dá cabula (estudante pouco assíduo; gazeteiro). Bem, mas a palavra teve uma sonoridade muito gostosa e jogo de cintura, é uma palavra que faz a gente encher a boca: “caBULOso”, como a gente enche pra falar “BUNDA” e ela me levou ao pai dos burros, o que é burrice quem afirma isso. O dicionário é o pai dos inteligentes.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Coisa de menina

Eu estava fazendo barba no banheiro e Lelê chega e me fala:
LL: Pai, agora eu vou tomar três banhos por dia.
DD: Ah, que bom.
LL: Mas amanhã não, vou começar só na segunda-feira. A melhor coisa do mundo é tomar banho.
Há pouco tempo, ou melhor, já faz bastante tempo, como toda criança, ela se recusava a banhar-se, só banhava com bronca nossa. Será que ela está em fase de transição, entrou na fase definitiva de banhos rotineiros?
DD: Olhe, filhinha, se você tomar seus dois banhos diários, um antes do almoço e outro antes do jantar, ou seja, antes de ir pra aula e ao chegar, pode ficar tranqüila, me dou por satisfeito.
Depois que ela já tinha terminado de tomar banho me pediu pra chamar Neide:
LL: Pai, por favor, chame Neide pra mim.
DD: Pra que que é?
LL: Chame Neide, pai.
DD: Mas pra que você quer Neide? Ela tá lá dentro fazendo as coisas dela.
LL: É coisa de menina (falou toda cheia de si).
Não perguntei o que era essa “coisa de menina” que ela queria falar com Neide, não insisti, não pisei fundo em minha curiosidade, que, talvez, ela quisesse que eu insistisse. Depois vejo Neide penteando o cabelo dela, fazendo um estilo amarrado e um filete de cabelo caindo na lateral.
Neide: É isso a “coisa de menina” que ela queria – e riu.
29.05.08 - Quinta-feira
Título:Rick Wakeman
●Depois que Lelê conversou com Neide:
LL: Né, pai, se eu quiser ir pra Vitória eu posso ir sem pedir autorização de ninguém?
DD: Não, tem que ter autorização minha e de Maurinete.
Neide: Tá vendo!
LL: Minha mãe tem que dá autorização, ou melhor, obrigação d’eu beber refrigerante todo dia (falando em tom de gozação).
Neide: Sei...
LL: Obrigação de me dar bastante chocolate, né pai?
DD: Ahan!
Neide: Anda Letícia, vamos, deixa eu pentear teu cabelo pra ir pra escola.
DD: Bora, bora, bora, Letícia, vamos almoçar!
LL: O que é bora?
DD: É uma marca de automóvel.
LL: É um carro muito legal. Eu nuca andei de bora.
DD: Vamos, Letícia, se não a van já vai passar pra te pegar e você num tá pronta.

●Quando fui hoje pegar Lelê na psicopedagoga voltamos ouvindo Tribute to The Beatles - cd de Rick Wakeman, que comprei semana passada no Carrefour, um fera do piano nas décadas de 1970/80, e o cara faz arranjos sensacionais com seu piano - e na quinta faixa a música tem um arranjo em que a bateria se destaca, e eu e Lelê vínhamos ouvindo essa faixa com o som meio alto, batendo bateria imaginariamente como um baterista de banda de rock com todos aqueles movimentos de braço e cabeça. Quem nos olhasse acharia que ali estavam um sujeito saído do Hospital São Vicente de Paula – hospital psiquiátrico de Brasília - com sua filha recém saída da Funabem. Diz Lelê que esse cd é muito bom.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A dor

Voltaram as dores nas pernas de Lelê – mais no joelho e na batata da perna. Já levamos ao pediatra, já foi retirada radiografia, e nada acusou. Diz o pediatra que essa dor é decorrência da fase de crescimento dela e o remédio é esperar o tempo passar. Tem momentos que ela chora – não foi o caso de hoje, até o momento – e aí eu tenho que ficar massageando suas pernas até ela adormecer ou passar um pouco essa bendita dor. Já sei que hoje de madrugada serei acionado como massagista. São os ossos do ofício. Ela já fez os deveres da escola, agora está vendo tv. Se o programa do Chaves, aquele programa mexicano que passa no SBT, passasse neste momento, vinte e três horas, talvez ela se entretivesse e acabasse dormindo. Ela adora as bobices (para mim, é claro) do Chaves. Taí um momento em que a televisão funciona como babá eletrônica. Lelê fala que provavelmente essas dores são porque ela brincou muito, pulou muito, se agitou muito na escola, e por isso não rodamos de bicicleta pela rua hoje como sempre fazemos quando ela chega da escola. Ah, massageio as pernas de Lelê usando cânfora. Dor, dor, mardita dor, por que você não vai embora e deixa nossa Lelezinha em paz! Vai, dor, vai, vai ver se eu estou na esquina e te manda sua tonta!

terça-feira, 27 de maio de 2008

Não caiu da cama

De madrugada acordo e vou ver como Lelê está – sempre que acordo por essas horas vou vê-la como está – e ela estava com as pernas pra fora da cama. Coloco-as pra cima da cama e como estava fazendo frio cubro-a com seu cobertor. De manhã, na hora do café:
LL: Pai, de madrugada eu senti que eu estava com as pernas de fora da cama e levei um susto.
DD: Mas eu acordei e fui em sua cama e vi que você estava com as pernas de fora e voltei com elas pra cama e te cobri com o cobertor.
Fiquei imaginando se essa minha atitude não seria o tal do instinto materno/paterno de saber que ela poderia cair da cama e acordei involuntariamente e a socorri ou simplesmente estou atribuindo poderes a mim inexistentes, fantasiosos.
Maurinete e Lelê já estão saindo – 7:10 h. Hoje é dia de Lelê ir pra Escola Parque – e eu brinco com as duas:
DD: Gente, como são lindas as minhas duas meninas, fala sério, não são umas gracinhas! Saindo as duas juntas nesse horário – eu busco Lelê meio-dia -, que lindo, gente! As duas riem com o sorriso de canto de boca ainda sedentas de cama e sono.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Primeiro

Semana passada estávamos eu e Lelê na sala de estar da biblioteca do UniDF esperando por Maurinete, sentados num sofá, Lelê com a cabeça sobre meu colo e eu acariciando seu rosto, cofiando seu cabelo, e de repente ela me pergunta:
LL: Pai, quem vai dar meu primeiro sutiã?
Olhei para sua região peitoral e respondi:
DD: Quando você tiver seios será eu.
Maurinete chegou para irmos lanchar e não deu tempo de acrescentar, mas deveria ter acrescentado: “Quando você chegar à primeira menstruação também te darei o primeiro modess; quando você estiver amadurecida, de namorado, provavelmente te darei a primeira camisinha; quando você sofrer o primeiro desencanto amoroso te darei o primeiro ombro para você desaguar suas lágrimas; quando você sofreu o primeiro tombo de bicicleta fui o primeiro a te socorrer; quem deu a primeira bronca em você, fui eu...; mas uma “coisa” primeira só você poderá nos dar, a mim e a Maurinete, é o primeiro neto.”

domingo, 25 de maio de 2008

Época do pediatra

Estamos na cozinha, Letícia sentada no colo de Maurinete.
Mauri: Ê, minha filha, já está na época de você ir ao seu pediatra.
LL: Fazer o quê?
Mauri: Ver como está sua saúde, saber quando você vai menstruar...
LL: Nunca!
Mauri: Você já vai completar 10 anos!
LL: Mãe, com quantos anos você menstruou?
Mauri: Com 13. Esmeralda também acho que foi com 13.
LL: E tia Izabel?
Mauri: Sei não.
LL: E tia Simone?
Mauri: Também não sei, você tem que perguntar pra elas. Continua Mauri em tom maternal: Um dia você vai casar e dessa barriguinha vai nascer filhos.
Já de pé, as duas dançando abraçadas:
Mauri: Tá vendo, Beibe, nessa fase é muito bom, abraçada à mamãe, carinho, beijinho...
DD: Depois já adolescente não quer nem saber e na frente dos amigos vai achar que isso é pagar mico.
Antigamente não era “pagar mico”, e sim “passar vergonha”. Como as crianças a linguagem também se modifica.

sábado, 24 de maio de 2008

O Brasil vai agradecer

Ontem a noite fui ao Guará e fui comprar cerveja no Bar do Chicão, 204 Sul e – sempre compro lá e ele adora Letícia – ao lado da entrada do bar tinha um mendigo, acocorado, uma fita amarrada na cabeça, já estava pra lá de Bagdá. Letícia estava comigo falando com Chicão e aí, de repente, ela me pede a chave do carro – não havia necessidade dela ter travado as portas – e correu até ele e volta com umas moedas e entrega pro mendigo. Já estamos fechando a tampa da traseira do carro e o mendigo se dirige até nós e fala pra Letícia: “seu gesto um dia o Brasil vai agradecer, o Brasil vai agradecer”. Esticando sua mão suja para minha, cumprimento-o com aperto de mão e pra mim fala: “Ela foi até o carro, pegou moedas e me deu. Seu gesto um dia o Brasil vai agradecer. O Brasil vai agradecer”. Falei-lhe um “Deus lhe acompanhe” e fomos embora. No carro Letícia repetiu: “seu gesto um dia o Brasil vai agradecer, o Brasil vai agradecer” e caímos na risada pela frase meio enigmática do bebum.