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sábado, 15 de maio de 2010

Cheiros


Recebemos as visitas de minha tia Doda e minha prima Lurdinha, ambas de São Paulo. Juntamente com minha mãe e minhas duas irmãs, estávamos tomando café, e, todos sentados à mesa, servindo-se, Maurinete indaga:
Mauri: Baby, você não está sentindo um cheiro de gás? (Será que esqueci alguma boca do fogão aberta?)
Eu: Não. Estou sentindo é o cheiro desse bolo aqui maravilhoso de banana.
Tia Doda: E eu estou sentido o cheiro gostoso desse chá.
Lurdinha: E eu estou sentindo o cheiro desse café delicioso.
Nem (irmã): E eu desse pão de quijo.
Márcia (irmã): Tô sentindo o cheiro de tudo isso gostoso.
E o cheiro que Lelê estava sentindo, qual era? Fiquei pensando o que ela iria dizer, já que tem um olfato sensível pra tudo. Tanto para gostar, quanto para detestar.
Lelê: Eu estou sentindo um cheiro de felicidades!
Todos à mesa expressaram um “ooooohhhhhh!!!!!”.
Lurdinha: Ai, que lindo!
Tia Doda: Nossa! Que bonito!
Lelê ficou mais fofa do que os bolos de Dona Benta do Sítio do Picapau, com sua inspiração. É verdade também que, se estivessemos servindo um camarão, Lelê não estaria sentada à mesa. Estaria lá na rua ou trancada em seu quarto fugindo do cheiro do crustáceo.
Poderia eu brincar e dizer que Lelê sente até o cheiro de Deus. Só não sente porque muito antes dela o finado escritor Roberto Drummond, o excelente escritor mineiro, já sentiu em seu O Cheiro de Deus, essa frase bastante expressiva. É uma frase solta deliciosa de se falar. Sinto.
Lelê acha interressante que quando as mulheres da paraíba se despedem ao telefone, elas falam, ao invés de “um beijo”, dizem “um cheiro”.
E Lelê adora perfume. Nunca vi! Pela manhã cedo, saindo pra escola, se deixar ela mete perfume sem dó. Só não faz porque lhe explico que ninguém iria lhe suportar na van e que a casa iria ficar incendiada, perfumada demais.
Mas Lelê só não derrama a mão no perfume porque Maurinete é exatamente o oposto. Tem alergia a perfume. Adoece com o cheiro de perfumes. Penso que já falei nisso num dos textos muito lá pra trás.
Lelê, a garota perfumada. Lelê, a menina que sente o cheiro até de Deus.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Picles

• Lelê: Mãe, esse cara que criou o chocolate Ferrero Rocher, o nome dele é Ferreira Rocha?
Mauri: Não sei, minha filha.
Lelê: Pela lógica, só pode ser.

• Lelê: Mãe, a palavra air bag é a mesma coisa que iceberg?
Mauri: Claro que não, minha filha.
LeLê: Mas que parece, parece.

• Letícia estudando um texto de ciências com Maurinete:
Lelê: ... tem na médula...
Maurinete: Na...
Lelê: ... tem na médula...
Maurinete: Na...
Lelê: ... na medula...
A leitura prossegue mais.
Lelê: ... feito por Sabin (leitura literal).
Maurinete: Por...
Lelê: ... feito por Sabin (leitura literal).
Maurinete: Por...
Lelê: Por Sabin (sêibin).

• Lelê lendo um texto de história para Maurinete e numa frase é usado a palavra ‘trabalho’, e Maurinete explica o sentido dela na frase.
Maurinete: Trabalho aí, significa mão-de-obra, emprego...
Lelê: Ah, eu pensei que era trabalho como o que eu dou pra você, fazendo coisas erradas.

• Ouvindo palavra do noticiário local de televisão, Lelê indaga:
Lelê: Pai, o que é ‘prisão perpétua’?
Eu: É a prisão em que o sujeito passa o resto da vida nela.
Lelê: É o caso de Arruda? (ex-governador de Brasília).
Eu: Mas Arruda não pegou prisão pérpetua.
Lelê: Mas devia.

É assim que vamos aparando as arestas das indagações de Lelê.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Lelê tem fome de quê?

Assunto recorrente entre os pais é sobre a alimentação dos filhos, principalmente porque certos filhos não gostam de comer. Lelê está inclusa nesse grupo. Já a levamos a médicos diversos para descobrir porque ela não tem o apetite que eu tenho – gostaria que ela comesse apenas vinte por cento do que como. Estaria satisfeito.
Pois foi hoje de manhã, na hora do café, que ela estava sem fome. Não queria comer nem bisnaguinha, o pão que ela tanto adora, mas mesmo assim iria fazer um esforço para se alimentar porque tinha receio de que mais tarde, no colégio, viesse a passar mal simplesmente porque não se alimentara no café da manhã. Mas o pior é que, pela previsão dela, se isso ocorresse, a diretoria do colégio iria telefonar para Maurinete e para mim para ir pegá-la porque ela não estaria passando bem, e aí o inferno astral dela estaria pronto com as broncas nossas. E ela imita-nos, com voz irônica e falseada, ralhando-a: “Bonito, né? Saindo do colégio passando mau porque está com fome, com tanta comida em casa! Você nos mata de vergonha, né!”
Mesmo levando lanche pra escola a menina ainda retorna pra casa com ele. O estômago dela parece que não se contrái, como deveria se contrair quando normalmente sentimos fome. Não sei se é verdade se o apetite está relacionado com a qualidade e apresentação dos alimentos. Mas sou categórico em afirmar que, se existe alguém preocupado com a alimentação, essa pessoa se chama Maurinete. Ela faz de tudo para que Lelê se alimente bem. Não mede esforços.
Acredito que isso não é só problema de Lelê. Minha vontade seria mandá-la para São Paulo passar uns dias com meu amigo Alcindo, pois ele todo dia come em um restaurante diferente e é só comida deliciosa. Ele registra tudo em seu blog. Só de olhar, e não de se ler, ficamos com água na boca. E Lelê adora comida de restaurante. Mas haja grana e tempo para nos dedicarmos a isso.
Acho até que vou falar pra Lelê que se ela estudar todos os deveres direitinho vou mandá-la para São Paulo para passar um mês com o tio Alcindo, inda mais que ele é tricolor carioca como ela. Ela iria dar pulos de alegria. O que não aconteceria com o tio Alcindo.
Nem vou comentar que Lelê tem fome de leite com toddy e pão, chocolate, refrigerante, chiclete, balinhas, pipoca. Nem vou explicar que Lelê tem sede de bicicleta, piscina, skate... Nem vou analisar que Lelê tem sede de filmes, de desenho animado – muito pica-pau.
Mas ela tem que entender que, para usufruir das delícias das coisas mencionadas no parágrafo acima, ela tem que comer verduras – tenho que reconhecer que ela adora couve e tomate -, tem que comer feijão, arroz, carne, macarrão – outra coisa que ela também adora se feito de forma bem simples.
Como comecei pelo título, continuo a indagar: Lelê tem fome de quê? Que apareça alguma mãe, ou pai, para me explicar.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Começou a Copa pra Lelê

Aqui em casa começou a Copa do Mundo da África do Sul. Pelo menos para mim e Letícia. Maurinete não é chegada. Ela acha que é muita tensão, muito nervosismo. Jogos do Brasil ela não gosta nem de ver. Sai, vai caminhar, faz alguma coisa para se desligar do auê provocado nos dias de jogos da seleção brasileira.
Digo que começou a Copa pra nós não porque Dunga divulgou hoje a lista dos convocados da seleção brasileira. Começou porque Lelê está colecionando o álbum da Copa 2010. Foi contaminada pelo o embalo de sua escola. Disse ela que tá todo mundo colecionando e ela também quer. E eu aproveitei pra entrar no embalo também. Vou ter a chance de completar um álbum de figuirnhas em minha vida, já que, na infância, fiquei com água na boca. Não tinha mufa pra gastar com figurinhas. Com Lelê na festa, tô nessa.
A verdade é que descobri que a febre por esse álbum está tão grande que não se encontra em canto nenhum o bem dito álbum pra se comprar. Só através de encomenda, que já fiz, se consegue esse livro em branco. Parei de circular de banca em banca para adquiri-lo. Nem na banca da rodoviária de Brasília, onde se encontra – se encontrava – de tudo, não tem mais. Só Lelê pra me fazer de peregrino de banca de jornais.
Li matérias no jornal Estado de São Paulo e Correio Braziliense que não é só a gurizada, não, que está correndo atrás da brincadeira. Os marmanjos e marmanjas também entraram na dança. Uns, por nostalgia, outros por achar interessante mesmo. Acho que é lúdico acompanhar seu filho, filha, para aumentar mais ainda seu estado de ânimo, de alegria, despertar interesse por algo com paixão, compartilhar o espírito coletivo na troca de figurinhas repetidas, no escambo e no jogo do bafo. Ela se senta confraternizada com esse jogo de papeizinhos coloridos.
Lelê comprou hoje sete envelopes e não veio nada repetido. Caramba, ela ficou super feliz. E vieram dois escudos de seleções. Um foi da Argentina. Lhe sugeri fazer anotações num caderno das que já tem pra não adquirir repetidas quando for trocar com os colegas. Disse Lelê que o pessoal da escola estava econtrando dificuldades para encontrar a figurinha de Kaká. Ronaldinho Gaúcho tá nessa coleção, Lelê tem, mas o Dunga não tem, porque não quis convocà-lo. Nem perguntei ainda a opinião de Lelê sobre os 23 convocados. Mas pensando bem, é melhor não perguntar, pois se não ela vai ficar uma fera porque Dunga não convocou ninguém do Fluminense, o time que ela torce.
O jogo está só começando. Muita água, digo, muita bola ainda vai rolar. Com certeza retornarei mais vezes a esse assunto.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Fugindo da escola

Na van escolar rola muita conversa, e Lelê sempre me conta as presepadas da galera.
Certo dia fulano de tal (não entrego ninguém) fugiu do colégio com um colega para ir passear no shopping. Beleza pura. Longe das aulas chatas. O verdadeiro prazer está nas vitrinas e não nas salas de aulas, segundo a molecada. Azarando no shopping os moleques estavam já botando os pés no chão ao sair da escada rolante quando depararam com alguém que eles não queriam tomar conhecimento. Foi a gota dágua. Melhor era não ter matado aulas, não ter fugido do colégio, pensaram eles em rápido exame de consciência. Pensaram tarde, muito tarde. Porque esse alguém era a mãe de um deles. Segundo terceiros o pau comeu.
Poderia eu ter sugerido a essa rapaziada o livro sobre a vida de Bussunda, o finado humorista do Casseta e Planeta, um talento do humor do fim dos anos 80 no Brasil. Bussunda – A vida do Casseta, é um livro que revela muitas presepadas do mais famoso casseta. Quando ele era adolescente usava o golpe de acordar cedo para, dizia ele em casa, ir cursar aulas de inglês. Mas esse inglês estava era num banco no calçadão de Copacabana, onde ele continuava puxando um ronco.
Mas não é qualuer moleque que tem a capacidade de se transformar num talento matando aulas.
O máximo que infringi as normas da escola foi ter sido mandado para fora da sala de aula. E em uma outra ocasião peguei uma semana de suspensão porque não fui ouvir o discurso da diretora da escola. Confessadamente: gostei muito.
Em relação a Lelê, até acho que ela é bem comportada, pois nunca recebemos nenhuma advertência séria da direção de sua escola. As observações são leves. Pelo menos até hoje.

domingo, 9 de maio de 2010

Ser mãe é...

E agora, o que dar de presente para Maurinete nesse dia das mães? Convoco Lelê para ouvir sua sugestão. Nem pestanejou:
Lelê: A caixa de cds do Roberto Carlos dos anos 70.
Eu: Isso, boa idéia. Vamos comprar.
É que Maurinete já tem a caixa dos anos 60 de RC que nós demos no ano passado pela passagem de seu aniversário. Penso que eu e Lelê estávamos mais interessados nessa caixa do que a própria Maurinete.
Compramos anteontem e escondemos. Hoje, após o café da manhã Lelê fez a entrega da caixa de cds. Beijinhos, abraços, felicidades...
Mamãerinete tem sido de uma dedicação com Lelê pra filho nenhum reclamar. Aliás, é o contrário. Os filhos reclamam das cobranças dos pais, acham que eles sufocam, e, tem mãe/pai que faz filho pagar mico. O que escrevi de diferente?
Ser mãe é, no caso de Lelê:
•Acompahá-la nos deveres de casa. “Dá tempo estudar ainda mais meia horinha”;
•Perguntar se já fez o Kumon. “Depois do Kumon pronto você pode ir brincar”;
•Falar mil vezes para Lelê comer verdura. “Se você não come agora, seu organismo vai reclamar futuramente”.
•Levá-la pra tomar sorvete. “Antes de voltarmos pra casa vamos ao Zimbro tomar uma rodade de sorvete e você pode escolher o que você quiser”.
•Botá-la pra dormir cedo por causa da escola. “Vamos logo dormir, senão amanhã cedo você não dá conta acordar”.
•Botá-la no colo e acarinhá-la. “É, minha filha, você está crescendo tanto que já não consigo te carregar no colo como antigamente”.
•Dar bronca por que está muito desorganizada. “Eu num já te falei, Letícia, pra arrumar sua gaveta de roupas, que está uma zorra!”.
•Fazer a comidinha especial, mesmo que não seja especial. “Tá bem, tá bem, eu vou fazer o seu miojo!”.
•Observar detalhes. “Já escovou os dentes?”. “Penteia esse cabelo direito!”. “Amarra os cadarços desse tênis!”. “Leve a carteirinha de estudante pra pagar meia!”. “Não está vendo que isso não tem o menor cabimento!”. “Mas isso é nota que se tire!”. “Meu parabéns, filha, continue assim com essa nota maravilhosa!”. “Que gracinha, filhinha, você está linda!”. “Não está vendo que essa blusa não combina com essa calça!”. “Não exagere esse condicionador no cabelo!”. “Fala lá com seu pai que ele resolve!”. “Eu não já te falei pela milésima vez pra não deixar esse tênis no meio da sala!”. “Ah, filhinha, como você está uma moça. Daqui a algum tempo você não está mais tão ligada com a gente. Estará mais ligada em sua galera!”...

sábado, 8 de maio de 2010

O diário de Lelê

Lelê agora está escrevendo um diário. Só não sei até por quanto tempo. Mesmo que seja por pouco acho válido exercitar a escrita. Perguntei-lhe se não queria que eu o colocasse na internet, criasse um blog exclusivo para ela. Rejeitou de bate-pronto. Disse que diário é segredo e ninguém pode ficar sabendo. Mesmo explicando-lhe que hoje em dia praticamente essa idéia não existe mais com a internet e seus blogs.
Então eu não vou falar nada aqui do diário de Lelê. Só posso revelar que esse diário é diferente. Diferente no aspecto de que é um diário de datas. Segundo ela, são registradas as datas marcantes em sua vida. Se não tiver a data – pode ser datas passadas - do que lhe ocorreu de importante, então ela não escreve.
Podia ela registrar o dia em que conheceu a sala de trabalho da Dilma Rousseff, hoje candidata do PT à presidência – conhecemos um pessoal gaúcho que trabalha com a indicada presidencial de Lula e Lelê foi lá com uma turma.
Lelê: Você sabe qual foi o dia?
Eu: Ah, isso foi há uns dois anos e pouco...
Lelê: Você sabe o dia?
Eu: O dia exato, não.
Lelê: Então não vou escrever.
Eu: Mas minha filha...
Lelê: Só escrevo se tiver data.
Bem, o nível de importância dela pode ser não o meu, nem o seu, provável leitor, como, por exemplo, o registro – vou escrever aqui só por alto – de seu primeiro vôo de avião. Ou o dia em que ela achou uma fitinha do Senhor do Bonfim. Ou o dia em que estreiou uma escova de dentes... São esses acontecimentos que são relevantes na ótica dela. Ela relegou a Dilma em relação a uma fitinha de pano e a uma escova dentária.
O título de cada escrito é sempre com um: “amgios queridos”, “amigos legais”, “amigos inesquecíveis”, “amigos legítimos”...